É PRETO NO BRANCO - POR THIAGO LEAL (07/12)
Mídia Abordada: Livro
Título: Corinthians - É Preto no Branco
Autor: Washington Olivetto e Nirlando Beirão
Lançado em: 2002, reedição em 2005, 260 páginas
Editora: Ediouro, Rio de Janeiro

O autor e a obra: Washington Olivetto, paulista, é o publicitário mais famoso do Brasil, presidente e diretor de criação da agência de propaganda W/Brasil. A W/Brasil é uma das agências de publicidades mais premiadas do mundo com filiais no exterior. Olivetto, que também exerce função de escritor, é torcedor fanático do Corinthians Paulista. Seu parceiro na autoria de É Preto no Branco é o jornalista carioca radicado em Minas Nirlando Beirão, também um corintiano ilustre. O livro faz parte da coleção Camisa 13, projeto da Ediouro com a história de grandes clubes brasileiros.

 
  MUITO MAIOR QUE O PRÓPRIO CLUBE

O que vou escrever aqui pode irritar alguns corintianos, mas o Sport Club Corinthians Paulista é um clube com muito mais mística que feitos propriamente ditos. Seu número de títulos nacionais se equivale a um de seus rivais urbanos, o Palmeiras, e é superado por outro, o São Paulo. Seu número de títulos estaduais é superior, é bem verdade... mas o Corinthians ainda não goza da conquista da Libertadores, agüentando o sarro dos palmeirenses, que detém uma, e do São Paulo, com três troféus sul-americanos. Mesmo a conquista mais importante do clube, o Mundial da FIFA de 2000, é contestado por todos que não corintianos.

A notoriedade do Corinthians acaba sendo maior por parte de seus 25 milhões de fanáticos torcedores, por seus 22 anos de jejum - quando um período de seca acaba sendo visto como ponto positivo, e não ponto negativo -, pela "Invasão" ao Maracanã em 1976 ou por seus torcedores famosos, como Juca Kfouri, o Presidente Lula, o cantor e compositor Toquinho e o próprio Washington Olivetto.

Isso tudo se soma a ídolos de personalidade forte que o Corinthians teve, desde Neco na década de 20, passando por Rivellino nos anos 60/70, Walter Casagrande e Sócrates nos anos 80, Neto nos anos 90 ou Carlitos Tevez e sua passagem relâmpago nos anos 2000.

Quando um clube tem uma mística tão forte, a ponto de se sobrepor a sua história e conquistas, sua biografia não pode ser um simples levantamento de fatos e estatísticas. Números e verdades não se mesclam a todo o misticismo que o Corinthians encarna, e foi preciso que dois talentosos escritores, Olivetto e Beirão, usassem de sua criatividade e tornassem a história do Corinthians em ficção, em romance.

Corinthians - É Preto no Branco é justamente assim. Como numa versão futebolística do filosófico Quando Nietzsche Chorou, Olivetto e Beirão discorrem a cronologia corintiana de forma exagerada, com a hipérbole que um clube de 25 milhões de torcedores merece. Os acontecimentos positivos são supervalorizados e contatos com outros olhos, fugindo do tradicional, com direito a alteração dos fatos, encaixando num roteiro de ficção digno de cinema. Os acontecimentos negativos? Seguem a mesma ótica, podendo ganhar um "final feliz" ou, de repente, uma visão mais heróica e menos trágica para derrotas que marcaram o Timão - como o Paulistão de 74 ou as Libertadores de 99 e 2000.

Toda a trama vai sendo narrada em primeira pessoa e envolve um terceiro personagem: o publicitário estadunidense Ed McCabe. Reza a lenda que McCabe, amigo de Olivetto, teria se "convertido" em torcedor corintiano ao aportar no Brasil durante a disputa das finais do Brasileirão de 1999, quando o Timão enfrentou e derrotou o Atlético Mineiro. Os capítulos do livro adquirem a forma de epístola a McCabe, ora relembrando momentos que o próprio McCabe viveu junto a Olivetto assistindo ao Corinthians, ora contando a história de forma fictícia, como já explicado.

Após cada capítulo, páginas pretas intituladas A VERDADE DOS OUTROS trazem os fatos verdadeiros, principalmente os de caráter mais negativos, descritos de forma irônica e dúbia por Olivetto e Beirão.

Ao longo de suas 260 páginas, É Preto no Branco se revela uma leitura descompromissada e divertida que serve desde ao mais fanático corintiano, que pode sonhar com as verdades irreais dos autores até o mais ardiloso palmeirense e são-paulino que relembra os fatos verídicos e têm a idéia do que seriam suas vidas de torcedor caso as coisas tivessem acontecido de outro modo. Claro que a leitura é obrigatória a fãs de futebol em geral. Esta não é uma biografia chata e comum de um clube. É uma viagem da ficção literária encontrando o esporte mais tradicional do mundo através de um dos times mais populares no país do futebol.

E quem mais pode tirar proveito dessa obra nos dias de hoje é o próprio torcedor corintiano em suas mágoas pós-rebaixamento. Quem sabe, ao final da última página, que traz a foto de Tevez comemorando um de seus três gols na goleada de 7x1 sobre o Santos no Brasileirão 2005, o leitor não possa aguardar uma nova reedição para o final de 2008, com mais um capítulo da gloriosa, sofrida e mística história do Sport Club Corinthians Paulista, com os incrementos da fantasia.