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O que vou escrever aqui pode irritar
alguns corintianos, mas o Sport Club Corinthians
Paulista é um clube com muito mais mística
que feitos propriamente ditos. Seu número
de títulos nacionais se equivale a um de
seus rivais urbanos, o Palmeiras, e é superado
por outro, o São Paulo. Seu número de títulos
estaduais é superior, é bem verdade... mas
o Corinthians ainda não goza da conquista
da Libertadores, agüentando o sarro dos
palmeirenses, que detém uma, e do São Paulo,
com três troféus sul-americanos. Mesmo a
conquista mais importante do clube, o Mundial
da FIFA de 2000, é contestado por todos
que não corintianos.
A notoriedade
do Corinthians acaba sendo maior por parte
de seus 25 milhões de fanáticos torcedores,
por seus 22 anos de jejum - quando um período
de seca acaba sendo visto como ponto positivo,
e não ponto negativo -, pela "Invasão"
ao Maracanã em 1976 ou por seus torcedores
famosos, como Juca Kfouri, o Presidente
Lula, o cantor e compositor Toquinho e o
próprio Washington Olivetto.
Isso
tudo se soma a ídolos de personalidade forte
que o Corinthians teve, desde Neco na década
de 20, passando por Rivellino nos anos 60/70,
Walter Casagrande e Sócrates nos anos 80,
Neto nos anos 90 ou Carlitos Tevez e sua
passagem relâmpago nos anos 2000.
Quando
um clube tem uma mística tão forte, a ponto
de se sobrepor a sua história e conquistas,
sua biografia não pode ser um simples levantamento
de fatos e estatísticas. Números e verdades
não se mesclam a todo o misticismo que o
Corinthians encarna, e foi preciso que dois
talentosos escritores, Olivetto e Beirão,
usassem de sua criatividade e tornassem
a história do Corinthians em ficção, em
romance.
Corinthians - É Preto no
Branco é justamente assim. Como numa versão
futebolística do filosófico Quando Nietzsche
Chorou, Olivetto e Beirão discorrem a cronologia
corintiana de forma exagerada, com a hipérbole
que um clube de 25 milhões de torcedores
merece. Os acontecimentos positivos são
supervalorizados e contatos com outros olhos,
fugindo do tradicional, com direito a alteração
dos fatos, encaixando num roteiro de ficção
digno de cinema. Os acontecimentos negativos?
Seguem a mesma ótica, podendo ganhar um
"final feliz" ou, de repente,
uma visão mais heróica e menos trágica para
derrotas que marcaram o Timão - como o Paulistão
de 74 ou as Libertadores de 99 e 2000.
Toda
a trama vai sendo narrada em primeira pessoa
e envolve um terceiro personagem: o publicitário
estadunidense Ed McCabe. Reza a lenda que
McCabe, amigo de Olivetto, teria se "convertido"
em torcedor corintiano ao aportar no Brasil
durante a disputa das finais do Brasileirão
de 1999, quando o Timão enfrentou e derrotou
o Atlético Mineiro. Os capítulos do livro
adquirem a forma de epístola a McCabe, ora
relembrando momentos que o próprio McCabe
viveu junto a Olivetto assistindo ao Corinthians,
ora contando a história de forma fictícia,
como já explicado.
Após cada capítulo,
páginas pretas intituladas A VERDADE DOS
OUTROS trazem os fatos verdadeiros, principalmente
os de caráter mais negativos, descritos
de forma irônica e dúbia por Olivetto e
Beirão.
Ao longo de suas 260 páginas,
É Preto no Branco se revela uma leitura
descompromissada e divertida que serve desde
ao mais fanático corintiano, que pode sonhar
com as verdades irreais dos autores até
o mais ardiloso palmeirense e são-paulino
que relembra os fatos verídicos e têm a
idéia do que seriam suas vidas de torcedor
caso as coisas tivessem acontecido de outro
modo. Claro que a leitura é obrigatória
a fãs de futebol em geral. Esta não é uma
biografia chata e comum de um clube. É uma
viagem da ficção literária encontrando o
esporte mais tradicional do mundo através
de um dos times mais populares no país do
futebol.
E quem mais pode tirar proveito
dessa obra nos dias de hoje é o próprio
torcedor corintiano em suas mágoas pós-rebaixamento.
Quem sabe, ao final da última página, que
traz a foto de Tevez comemorando um de seus
três gols na goleada de 7x1 sobre o Santos
no Brasileirão 2005, o leitor não possa
aguardar uma nova reedição para o final
de 2008, com mais um capítulo da gloriosa,
sofrida e mística história do Sport Club
Corinthians Paulista, com os incrementos
da fantasia.
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