O FUTEBOL - CHICO BUARQUE - POR THIAGO LEAL (28/01)
Mídia Abordada: Mídia
Título: Chico Buarque (1989)
Autor: Chico Buarque de Hollanda
Lançado em: 1989 - Relançado em 2004 
Gravadora: BMG

O autor e a obra: Chico Buarque de Hollanda é uma das personalidades brasileiras mais importantes no mundo. Filho de Sérgio Buarque de Hollanda, historiador e jornalista brasileiro, Chico começou sua carreira como músico, cantor e compositor em 1965. A porta do sucesso de Chico foi o I Festival Nacional de Música Popular Brasileira, que o lançou para as massas. Em 1966 lançou seu primeiro álbum, que levava apenas seu nome, e daí partiu para o sucesso como um verdadeiro artista multimeios, lançando também livros, peças teatrais e filmes. Pela música de Chico, nota-se três paixões: o Carnaval, o protesto e a contestação contra a Ditadura que mandava no país quando o artista começou sua carreira, e o futebol, mais especificamente o Fluminense Futebol Clube.

 
  MUSICANDO POR JOGO

"Para Mané, para Didi, para Mané...
Mané para Didi, para Mané, para Didi...
Para Pagão, para Pelé... e Canhoteiro."

Bem que poderia ser uma narração radiofônica de algum momento da Seleção Brasileira nos áureos anos 50 ou 60. Esse pequeno trecho encerra o choro "O Futebol", sexta faixa do disco Chico Buarque de 1989. A música lida sobre o sonho de ser um jogador de futebol - coisa que o Skank faria com muito menos estilo em 1998 na famosa canção "É Uma Partida de Futebol". Os primeiros versos da música falam sobre o sonho de Chico de ter a habilidade de Pelé em marcar um gol, e seguem fazendo referências aos nossos craques do passado, citando a Folha Seca, chute imortalizado por Didi, e descrevendo a ginga de Garrincha na hora de fintar um adversário.

Tudo que é descrito na música recebe um paralelo com a habilidade do próprio Chico em compor canções, onde o autor se assume um craque na arte de construir uma melodia e escrever sua letra, mas se assume impotente no campo se comparado aos verdadeiros grandes jogadores de futebol.

O mais interessante de "O Futebol", música sem refrão, é sua estrofe final - versos que abrem esta coluna. Chico canta como se fosse um narrador do esporte, de TV ou rádio, descrevendo uma tabelinha entre Garrincha e Didi, dando inclusive o timing e o ritmo que tinham os dois jogadores do Botafogo quando trocavam passes. De Didi, a bola segue para Pagão, que passa para Pelé. De Pelé para Canhoteiro, e a voz de Chico encerra, tendo a canção apenas mais um acorde final no violão, o que dá a entender que Canhoteiro matou a jogada com um gol - E que gol! Uma tabelinha entre Mané, Didi, passe para Pagão, passe para Pelé e assistência a Canhoteiro. O curioso é que Pagão pode ter dupla interpretação. Pode tanto ser o Pagão, craque do Santos nos anos 50 quanto... o próprio Chico Buarque!

Pagão é o grande ídolo de Chico na história do esporte, e o compositor adotou o mesmo pseudônimo que o ex-craque nas suas peladas tradicionais pelo clube que ele mesmo fundou - o Politheama Futebol Clube, que tem as cores branco, verde e azul. Sempre que entra em campo em jogos amistosos pelo Politheama, Chico assina a súmula usando o seu pseudônimo costumeiro, Pagão.

Lançada já no declínio prolífico - seu último disco de músicas inéditas, Paratodos, fora lançado em 1993 - "O Futebol" é uma canção que transcende os limites da música popular brasileira por sua personalidade e sua genialidade em fugir do comum. Não é um simples choro. É uma pequena aula sobre futebol-arte, que se encerra com um gol deste mesmo futebol-arte. É impossível ouvir os versos finais de "O Futebol" e não visualizar a jogada sensacional que passa pelos pés de Garrincha, Didi, Pagão, Pelé e finaliza em Canhoteiro - esse sabia finalizar, e muito bem. Assim como Chico, mas não com a bola nos pés, mas sim o violão em mãos, como o próprio autor reconheceu.