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"Para Mané, para Didi, para Mané... Mané
para Didi, para Mané, para Didi... Para
Pagão, para Pelé... e Canhoteiro."
Bem
que poderia ser uma narração radiofônica
de algum momento da Seleção Brasileira nos
áureos anos 50 ou 60. Esse pequeno trecho
encerra o choro "O Futebol", sexta
faixa do disco Chico Buarque de 1989. A
música lida sobre o sonho de ser um jogador
de futebol - coisa que o Skank faria com
muito menos estilo em 1998 na famosa canção
"É Uma Partida de Futebol". Os
primeiros versos da música falam sobre o
sonho de Chico de ter a habilidade de Pelé
em marcar um gol, e seguem fazendo referências
aos nossos craques do passado, citando a
Folha Seca, chute imortalizado por Didi,
e descrevendo a ginga de Garrincha na hora
de fintar um adversário.
Tudo que
é descrito na música recebe um paralelo
com a habilidade do próprio Chico em compor
canções, onde o autor se assume um craque
na arte de construir uma melodia e escrever
sua letra, mas se assume impotente no campo
se comparado aos verdadeiros grandes jogadores
de futebol.
O mais interessante de
"O Futebol", música sem refrão,
é sua estrofe final - versos que abrem esta
coluna. Chico canta como se fosse um narrador
do esporte, de TV ou rádio, descrevendo
uma tabelinha entre Garrincha e Didi, dando
inclusive o timing e o ritmo que tinham
os dois jogadores do Botafogo quando trocavam
passes. De Didi, a bola segue para Pagão,
que passa para Pelé. De Pelé para Canhoteiro,
e a voz de Chico encerra, tendo a canção
apenas mais um acorde final no violão, o
que dá a entender que Canhoteiro matou a
jogada com um gol - E que gol! Uma tabelinha
entre Mané, Didi, passe para Pagão, passe
para Pelé e assistência a Canhoteiro. O
curioso é que Pagão pode ter dupla interpretação.
Pode tanto ser o Pagão, craque do Santos
nos anos 50 quanto... o próprio Chico Buarque!
Pagão
é o grande ídolo de Chico na história do
esporte, e o compositor adotou o mesmo pseudônimo
que o ex-craque nas suas peladas tradicionais
pelo clube que ele mesmo fundou - o Politheama
Futebol Clube, que tem as cores branco,
verde e azul. Sempre que entra em campo
em jogos amistosos pelo Politheama, Chico
assina a súmula usando o seu pseudônimo
costumeiro, Pagão.
Lançada já no
declínio prolífico - seu último disco de
músicas inéditas, Paratodos, fora lançado
em 1993 - "O Futebol" é uma canção
que transcende os limites da música popular
brasileira por sua personalidade e sua genialidade
em fugir do comum. Não é um simples choro.
É uma pequena aula sobre futebol-arte, que
se encerra com um gol deste mesmo futebol-arte.
É impossível ouvir os versos finais de "O
Futebol" e não visualizar a jogada
sensacional que passa pelos pés de Garrincha,
Didi, Pagão, Pelé e finaliza em Canhoteiro
- esse sabia finalizar, e muito bem. Assim
como Chico, mas não com a bola nos pés,
mas sim o violão em mãos, como o próprio
autor reconheceu.
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