UM DOMINGO QUALQUER - POR THIAGO LEAL (01/03)
Mídia Abordada: Cinema
Título: Um Domingo Qualquer
Autor: Oliver Stone (direção)
Lançado em: 1999
Estrelando: Al Pacino, Jamie Foxx, Dennis Quaid, Cameron Diaz e James Woods
No Brasil: DVD - Warner Home Vídeo

O autor e a obra: O autor e a obra: Oliver Stone é um dos principais diretores da história de Hollywood. Suas obras chamam atenção por contarem com um realismo impressionante - é impossível assistir a um filme de Stone sem ter a impressão que está se presenciando um evento real. Violência, crueza, cenas fortes, situações de incrível verossimilhança... tudo isso pode ser verificado numa produção sob a batuta de um dos mestres do cinema contemporâneo. Stone tem três prêmios Oscar em seu currículo, sendo um por roteiro (Expresso da Meia-Noite) e dois por direção (Nascido em Quatro de Julho e Platoon). Apaixonado por políticas, manipulações de bastidores e toda sujeira que rola solta nos Estados Unidos, Oliver Stone dirigiu clássicos como Wall Street, JFK, Assassinos por Natureza, Nixon e The Doors. Toda essa abordagem foi transferida para o apaixonante universo do futebol americano sob a ótica desse diretor implacável. Assim, nasceu Um Domingo Qualquer.

 
  DIGNO DE UM SUPER BOWL

Aproveitando as recentes abordagens sobre futebol americano no Fanático EC, esta coluna vos apresenta um dos melhores, se não o melhor, filme já produzido sobre este esporte singular. Sem fugir à premissa básica da maioria dos filmes de esportes - atletas iniciantes, times em crises, superação, resultados surpreendentes -, Oliver Stone procurou abordar o que acontece por trás da vida de um treinador decadente, um quarterback judiado por contusões, um calouro inexperiente e uma franquia de futebol à beira da falência.

O Miami Sharks é um time de futebol americano treinado pelo veterano Tony D'Amato (Al Pacino). No passado, D'Amato e os Sharks tiveram temporadas vitoriosas e títulos a comemorar. Era os tempos em que a franquia pertencia ao finado Pagniacci. O tempo passou, Pagniacci faleceu e sua filha Christina Pagniacci (Cameron Diaz) assumiu os negócios do pai. Os Sharks passaram a decair dentro da Liga e os métodos de treino de D'Amato começaram a se tornar repetitivos e obsoletos. Sua demissão era uma mera questão de tempo, e a franquia também podia estar com os dias contados.

Para piorar, Jack 'Cap' Rooney (Dennis Quaid), quarterback titular da equipe e jogador preferido de D'Amato, se lesiona e tem de se afastar da equipe. O segundo quarterback entra em campo, se lesiona, e o inexperiente 'Steamin' Willie Beamen (Jamie Foxx), um quarterback negro, assume o comando da equipe em campo. Começa a partir desse ponto a saga dos Sharks precisando de uma virada na temporada. Os problemas físicos de Rooney e sua falta de motivação para praticar o esporte, além de problemas pessoais com sua esposa; a evolução de Beamen como jogador e sua involução como pessoa, tornando-se cada vez mais convencido e insuportável ao mesmo tempo que mostra ser um jovem fenômeno do esporte; e a vida desgastada de D'Amato, recusando-se a aceitar que seu tempo como treinador já pode ter passado; tudo isso sob as frustrações de Christina, incompetente em fazer do seu time um campeão como fora a equipe do seu pai. E é aqui, longe dos campos, que brilha o gênio de Oliver Stone, mestre em descrever os sentimentos dos personagens e analisar seus problemas pessoais.

Dentro de toda essa saga, os bastidores de um time de futebol americano. Um médico inescrupuloso (James Woods) que compromete a saúde de seus atletas em nome de rendimento dentro de campo, o tráfico de influências e as sujeiras em que os jogadores profissionais se metem; o abuso da fama, escândalos sexuais, drogas... tudo é relatado de forma crua e chocante em Um Domingo Qualquer.

A medida que o filme passa, o espectador acaba se desligando dos campos (afinal de contas, o que acontece lá não passa de uma história comum e repetitiva) e passa a acompanhar a vida íntima dos personagens. E como isso é um filme de Oliver Stone, as atitudes dos mesmos são imprevisíveis e os acontecimentos idem. E tudo isso se encaixa num cenário repleto de referências ao universo real do futebol americano - Miami Sharks é uma referência à franquia Miami Dolphins; Tony D'Amato é inspirado no veterano treinador do Dallas Cowboys Tom Landry; Jack Rooney é uma bela homenagem a Dan Marino, um dos melhores quarterbacks da história do futebol americano; Willie Beamen é inspirado no ex-quarterback Jeff Blake; e Christina Pagniacci vem de Jerry Jones, dono do Dallas Cowboys.

E, claro, sem maiores detalhes que possam estragar surpresas, não espere o óbvio no final dessa produção.

D'Amato cita durante todo o filme uma citação do antigo dono dos Sharks, o velho Pagniacci: "Num domingo qualquer, perca ou vença, desde que perca como homem ou vença como homem". Stone dirigiu um filme cheio de personagens que se baseiam nessa premissa - uns a seguem, outros, covardemente, a quebram. É difícil não imaginar que Um Domingo Qualquer relata uma história real de bravura e de homens que jogam como tal - independentemente de vencer ou perder. É uma ficção que, fosse realidade, sem dúvida seria digna de um Super Bowl.