AMOR EM JOGO - POR THIAGO LEAL (02/11)
Mídia Abordada: Cinema
Título: Amor em Jogo (Fever Pitch)
Autor: Peter e Bobby Farelly (direção)
Lançado em: 2005
Estrelando: Jimmy Fallon e Drew Barrymore
No Brasil: DVD lançado pela Fox Filmes do Brasil

O autor e a obra: Os irmãos Farrelly têm sido reconhecidos em Hollywood como dois ótimos diretores de comédia romântica. Entre suas obras, estão os hilários filmes O Amor é Cego (Shallow Hal) com Jack Black e Gwyneth Paltrow, Eu, Eu Mesmo e Irene (Me Myself and Irene) com Jim Carey e Renée Zellweger e Quem Vai Ficar com Mary? (There's Something About Mary) com Ben Stiller e Cameron Diaz. Uma característica marcante nas preduções dos irmãos Farrelly, que torna suas comédias únicas, é o humor non-sense, quebrando clichês através de situações inusitadas, irreverentes e completamente sem sentido - e todas extremamente engraçadas. A comédia romântica, que é um gênero a princípio chato e repetitivo, foi revolucionada por Peter e Bobby Farrelly.

 
  UM AMOR MAIOR QUE UMA SÉRIE MUNDIAL

O título original do filme, Fever Pitch, vem do livro de Nick Hornby, já comentado nesta coluna. E é justamente na obra do autor inglês que a produção hollywoodiana se inspira, apenas trocando o futebol por beisebol. Mas qualquer fã brasileiro que assistir a Amor em Jogo, o triste e batido título em português, com certeza se identificará com Ben Wrightman (Jimmy Fallon), um torcedor inveterado do Boston Red Sox - basta se colocar no lugar dele substituindo seu time do coração por qualquer clube brasileiro.

Quandro criança, Ben (interpretado durante a infância por Jason Spevack) enfrentava o difícil processo de separação de seus pais. Nesse período, foi levado por um tio ao Fenway Park, estádio do Boston Red Sox para assistir a um jogo do tradicional clube de beisebol estadunidense. Após a partida, Ben ganhou do tio um álbum do clube, com diversas fotos, estatísticas, histórias... nascia uma nova paixão na vida de Ben, substituindo o pai que saiu de casa.

O filme se segue com o adulto Ben, um professor primário levando suas crianças para assistirem a uma palestra com Lindsey Meeks (Drew Barrymore). Após o encontro, Ben e Lindsey se interessam um pelo outro e começam o romance. O primeiro ponto interessante da comédia é que não há o momento "amor a primeira vista" como acontece no gênero, mas sim um contato inicial seguido de uma ponderação e a vontade de ambos apenas de "se conhecer", dando origem ao romance.

O segundo ponto chave é... a partir do momento que Ben e Lindsey começam um namoro, surge um "triângulo amoroso". Mas não um triângulo amoroso comum de comédias românticas onde há uma outra pessoa amorosamente interessada na relação, mas sim um triângulo entre Jimmy, Lindsey e o Boston Red Sox - a terceira pessoa deste triângulo não é um homem ou uma mulher, mas sim um time de beisebol inteiro, seus jogadores e seus torcedores cativos.

Conhecendo Ben cada vez melhor, Lindsey pôde descobrir não só um bom namorado e um trabalhador esforçado, mas um torcedor fanático e compulsivo. Lindsey passa a freqüentar Fenway Park com Ben, a conhecer os torcedores que dividiam com Ben a dor de torcer por uma equipe que há 86 anos não ganha a Série Mundial, campeonato de beisebol mais importante do mundo, e a (não) entender como um time desperta um sentimento tão forte em alguém que não lucra nada com isso - mais uma situação com a qual o fã brasileiro pode se identificar de imediato. Aos poucos Lindsey passa a se questionar sobre o que é mais importante na vida de Ben, ela ou o Red Sox, ao mesmo tempo que Ben se faz o mesmo questionamento e, ao ver que, de fato, Lindsey parece ser mais importante que o time, o torcedor se incomoda e não aceita o fato.

Ao longo da produção assistimos passo a passo as tentativas de Lindsey se adaptar ao Red Sox, Ben se adaptar a Lindsey e do Red Sox tentar vencer mais um campeonato de beisebol, na Temporada 2004 das Grandes Ligas norte-americanas. O filme acerta em cheio justamente por formar este bizarro triângulo amoroso já explicado antes. Ben tem de se explicar aos amigos torcedores por não ir a um jogo quando tem de sair com Lindsey, e a mesma tem de relaxar para não perder as estribeiras quando Ben desiste de viajar a Paris com ela para ir à Costa Oeste assistir a um jogo de beisebol. Tudo acontece em meio a diálogos e situações inusitadas, mas tudo sem muito exagero. O melhor deles, que não será revelado aqui para não estragar surpresas, acontece entre Ben e um garoto do time de beisebol infantil que ele treina.

O mais interessante é que 2004 foi o ano em que o Boston Red Sox quebrou o jejum de 86 anos de jejum da Série Mundial. O filme foi realmente filmado durante a temporada e era planejado para, como sempre acontecia, encerrar após mais uma derrota dos Red Sox. "E se eles ganharem?", perguntaram aos irmãos Farrelly durante a produção. "Eles nunca ganham", responderam. Com o título conquistado após uma virada sensacional sobre o rival New York Yankees, os irmãos-diretores tiveram de adaptar o final e conseguiram uma saída genial a ser conferida por quem assistir ao filme.

Amor em Jogo é uma produção que rende boas risadas e mostra que, com boa vontade, qualquer casal sobrevive a um time de beisebol - ou de futebol, caso seja o seu caso. São duas visões de duas formas de amor que acabam se encontrando, a partir do momento que um casal percebe que as duas coisas são, na verdade, semelhantes e deveriam se equivaler.