|
Um bárbaro de muita
classe 30/11
O futebol sueco é muito lembrado pelos
nomes recentes, desde Martin Dahlin e Thomas
Brolin da Geração '94 a Fredrik Ljungberg,
Henrik Larsson e Zlatan Ibrahimovic, o fenômeno
atual. Certamente se você perguntar a algum
torcedor de futebol qual o maior jogador
sueco de todos os tempos, Larsson ou Ibrahimovic
vai ser a resposta mais ouvida, por mais
absurdo que isso possa parecer. Brasileiro,
que olha muito pro próprio umbigo, costuma
lembrar nomes do passado do futebol nacional.
Ou, no máximo dos "grandes centros",
como argentinos, alemães, e também nobres
nomes de equipes inesquecíveis como a Hungria
de '54 ou Holanda de '74. Então me pergunto
porque nunca pensam na Suécia de 1958. A
Suécia de Nils Liedholm.
Tardia
homenagem Já faz quase um mês do
falecimento de Liedholm, aos 85 anos de
idade, na região de Piemonte na Itália.
Esta coluna estava planejada para seguir
sua morte, mas acabou atrasando. De qualquer
forma, nunca é tarde para apresentar um
dos maiores jogadores de todos os tempos,
independentemente de nacionalidade, a quem
ainda não o conhece.
Menino de
ouro Liedholm começou a ter destaque
na carreira relativamente tarde, aos 24
anos de idade, quando passou a integrar
a Seleção Sueca e a defender o IFK Norrköping.
Antes, o meio-campo havia passado pelo IK
Sleipner, um clube sueco de menor estrutura.
A transferência para o Norrköping o permitiu
entrar em evidência por ganhar dois Campeonatos
Suecos e, junto com a Seleção, vencer a
medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres
em 1948, derrotando a Iugoslávia na final
por 3-1.
Gunnar Nordahl e Gunnar
Gren foram o autor dos gols. O mérito dos
dois atacantes, no entanto, se deve justamente
a Liedholm. O meia começou a ganhar notoriedade
por suas habilidades em passes, principalmente
para abastacer Nordahl, com quem atuava
junto também pelo Norrköping, e Gren. O
título deu a chande a Liedholm, juntamente
com Gren e Nordahl, de se juntar ao vitorioso
esquadrão do AC Milan um ano depois.
A
Linha Gre-No-Li Em 1949, Liedholm
trouxe seus passes e lançamentos para o
AC Milan, onde seguiria fornecendo munição
para a artilharia de Gren e Nordhal. A chegada
dos três em Milão encontrou um time com
apenas três campeonatos no currículo (1901,
1906 e 1907) e em desvantagem em relação
a seus rivais - a Internazionale trazia
cinco títulos e a Juventus sete. Em sua
chegada ao Milan, Liedholm, Gren e Nordahl
levaram o Milan ao vice-campoeonato italiano,
atrás apenas da Juventus e à frente da Internazionale.
O
primeiro título veio na temporada seguinte,
em 1950-51, com apenas um ponto de vantagem
sobre a rival Internazionale. Liedholm já
era, a essa altura, o grande ídolo do clube,
e há quem diga que o sueco não errava um
passe sequer - e manteve essa marca por
dois anos, causando uma ovação de cinco
minutos no San Siro no momento que errou
seu primeiro passe com a camisa rossonera.
O esquema do Milan funcionava da mesma forma
que na Seleção Sueca e Liedholm era o grande
assistente dos gols de Nordhal, além de
marcar seus tentos também. A eficiência
de Gren, Nordhal e Liedholm era tamanha
que a linha ganhou o apelido de Gre-No-Li.
Funcionou tão bem que em 257 jogos pela
Série A italiana, Nordhal marcou 225 gols.
A maior parte deles, claro, graças aos passes
de Liedholm.
Os títulos de Liedholm
à frente do Milan se repetiram por mais
três vezes, se despedindo dos gramados com
o vice-campeonato italiano em 1961.
Nesse
período, foram 359 jogos com 81 gols, e
é uma pena que o futebol não contabilize
assistências, como fazem no hóquei no gelo.
Liedholm também foi o capitão do Milan na
final da Liga dos Campeões (à época, Copa
dos Campeões) de 1958, perdendo para o Real
Madrid por 3-2 na prorrogação.
A
Copa do Mundo de 1958 Da mesma forma
que a Holanda de Cruyff e a Hungria de Puskas,
a Suécia teve seu vice-campeonato com um
grande líder. Quase aos 36 anos de idade,
Liedholm foi o capitão da Seleção Sueca
que alcançou a final da Copa do Mundo e
protagonizou uma cena famosa no Brasil:
marcou o primeiro gol da Suécia na final
contra a Seleção Brasileira - aquele que
fez Didi catar a bola no fundo das redes
e levá-la em silêncio ao meio-campo para
dar início a uma virada sensacional, ao
lado de Pelé, Vavá e Garrincha. O time sueco
ainda tinha Nordhal, mas era difícil encarar
uma Seleção como aquele time Brasileiro,
e o título sueco foi arrancado de forma
justa. Ainda fosse 11 Liedholms de amarelo
naquela partida...
Homem a frente
de seu tempo A carreira profissional
de Liedholm durou até os 39 anos - uma idade
avançada para a época e, consideremos, até
os dias de hoje. Isso se deve a uma inovação
que o sueco ajudou a consolidar no futebol:
o condicionamento físico. O próprio Liedholm
dizia que aprimorava seu condicionamento
correndo 100m, 3000m e praticando salto
em altura e lançamento de dardo e peso duas
vezes por semana. O treinamento físico de
Liedholm é algo que mesmo atletas de futebol
da atualidade não conseguem repetir. Talvez
por isso suas carreiras durem menos.
Carreira
como treinador Após abandonar os
gramados, Liedholm assumiu o comando técnico.
Seguiu por mais cinco anos no Milan onde
trabalhou como assistente, vencendo a Copa
dos Campeões, e em seguida como treinador;
e depois passou por Verona, Monza, Varese
e Fiorentina. Entre outras passagens pelo
Milan, Liedholm treinou a Roma, com o talentoso
volante brasileiro Paulo Roberto Falcão,
chegando à final da Copa dos Campeões em
1984 e a perdendo para o Liverpool nos pênaltis.
Mesmo
antes de Telê Santana, Liedholm já pedia
para que seus atletas não fizessem faltas,
alegando que uma falta é um erro duplo.
Você nem toma a bola e ainda dá uma vantagem
ao adversário.
Liedholm se despediu
do futebol em 1997 para cuidar de sua vinícula
ao lado de seu filho, Carlo, na região de
Piemonte. Viria a falecer dez anos depois.
E seu legado não é maior por ter sido de
um país sem tantas dradições futebolísticas.
Fosse alemão, francês ou holandês, o mundo
teria em Liedholm um exemplo à altura de
Franz Beckenbauer, Michel Platini ou Johan
Cruyff.
|