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Quase um imortal 20/02
Robert Charlton estava junto com a delegação
do clube que defendia, o Manchester United,
no Aeroporto de Munique, preocupado com
a decolagem, devido à forte tempestade de
neve que caía na Alemanha desde que o avião
do time parara na cidade, vindo de Belgrado,
para reabastecer. Mais preocupados ainda
estavam Tommy Taylor e David Pegg. Tão preocupados
que pediram para trocar de lugar com Charlton
e Dennis Viollet, que estava a seu lado.
Taylor e Pegg acreditavam que sentar ao
fundo da aeronave, longe das asas, seria
mais seguro.
Alguns dias depois,
Robert Charlton era o primeiro jogador do
Manchester United a deixar o hospital, ainda
abalado com o acidente aéreo que matou sete
de seus companheiros de clube. Socorrido
pelo goleiro Harry Gregg, Charlton pode
ter escapado da morte antes mesmo da ação
do amigo, quando trocou de poltronas momentos
antes do acidente. Taylor e Pegg foram duas
das sete vítimas, o que leva todos a acreditar
que fatalmente Charlton teria morrido, não
tivesse inocentemente trocado de lugar a
pedido dos colegas, mais preocupados que
ele.
Foi o primeiro fato realmente
marcante na vida desta lenda do futebol
britânico. Bobby Charlton lapidou neste
episódio o primeiro estigma de sua condição
de "mago", para os fãs do futebol
inglês.
Nascido em berço de ouro
- e grama George Milburn, Jimmy Milburn,
Stan Milburn, John Jack Milburn e John Edward
Thompson 'Jackie' Milburn, membros do histório
Clã Milburn, uma informal instituição futebolística
na Inglaterra. Todos eles atuavam nos gramados
da Ilha quando sua irmã, Cissie Milburn,
deu luz ao pequeno Robert Charlton, na cidade
de Ashington. E foi Cissie quem incentivou
Bobby e seu irmão mais velho, John Jack
Charlton, a seguir a carreira dos tios.
Talvez
Cissie não tivesse consciência do que estava
causando ao futebol inglês. Não através
de Jack Charlton, zagueiro que se limitou
a ser "apenas" um bom jogador
inglês, mas através do caçula Bobby.
A
carreira do pequeno Bobby começou em clubes
escolares, na região leste de Northumberland,
onde cresceu. Seu irmão Jack já era juvenil
e estava iniciando a carreira nos profissionais
do Leeds United quando Bobby recebeu a visita
de olheiros do Manchester United.
Pequeno
diabo vermelho Da Escola de Gramática
para o Manchester United foi um pulo. Bobby
ainda tinha 15 anos naquele início de 1953,
quando assinou seu primeiro contrato profissional
com o United, mesmo que a contragosto de
Cissie, mãe coruja que temia que o filhão
estivesse precipitando demais as coisas
e se arriscando a jogar sua carreira no
lixo. Charlton só pode se profissionalizar
de fato em outubro do ano seguinte, quando
completou 17 anos de idade. Dois anos mais
tarde, estreou pelo time principal do Manchester
United, no restante da temporada 1956-57,
tornando-se um dos protegidos de Matt Busby,
os famosos Busby Babes. Em sua primeira
temporada com o Manchester United, Bobby,
com 19 anos de idade, jogou 14 partidas
e, ao final de 1957, comemorou o título
da Liga. Por pouco não veio a sonhada dobradinha
que os ingleses tanto gostam. A FA Cup foi
perdida diante do Aston Villa, em partida
contestada até hoje onde o goleiro Ray Wood
quebrou o maxilar em choque com o atacante
Peter McParland. Em campo, por pouco Charlton
não vestiu a camisa 1 e foi para o gol defender
seu clube da forma mais... "defensiva"...
possível. Seu colega Jackie Blanchflower
acabou assumindo a função.
Na temporada
seguinte, aos 20 anos de idade, Charlton
disputou sua primeira temporada completa
e o Manchester United fazia uma bela campanha
na Copa dos Campeões da Europa, coisa então
inédita a uma equipe inglesa. Depois de
eliminar o Estrela Vermelha de Belgrado
com exibição de gala de Charlton, o Manchester
United teve de parar seu avião em Munique
para reabastecer, dando origem à estrofe
que abriu esta coluna.
O "renascido"
Charlton Escapando por pouco do desastre
aéreo, muito em graças a seu colega Harry
Gregg, Charlton viu uma grande responsabilidade
cair sobre costas. Aquele avião pesado aterrissou
sobre seus ombros, e o jovem de 20 anos
de idade tinha sob si os olhares de fãs
e olheiros. O Manchester United não tinha
mais seu capitão Roger Byrne nem o promessor
e jovem atacante Liam Whelan. E todos passaram
a esperar que este Bobby Charlton assumisse
a responsabilidade em cima de um time parcialmente
destruído. Charlton passou suas primeiras
semanas após o episódio treinando com os
juvenis e cercado por jornalistas.
Naturalmente,
o Machester United foi eliminado na semi-final
pelo Milan por 4-2 - na temporada anterior,
o Manchester chegou também à semi-final,
quando foi massacrado pelo Real Madrid por
3-0. Dessa vez havia uma razão por qual
perder e a derrota era o menor dos problemas
de clube e torcedores.
Logo Bobby
Charlton foi convocado para a Seleção Inglesa
para disputar o jogo contra a Escócia pelo
tradicional Campeonato Britânico, primeira
competição entre Seleções da história do
futebol, envolvendo os quatro países que
formam a Grã-Bretanha. Em sua estréia, na
vitória por 4x0 em cima dos rivais escoceses,
Charlton foi reverenciado por um drible
desconcertante em cima do consagrado zagueiro
escolto Tom Finney. Já na sua segunda partida,
contra Portugal, em pleno Wembley, Bobby
marcou os dois gols da vitória inglesa por
2-1. Sua terceira partida seria em Belgrado,
contra a Iugoslávia, e, obviamente, o jovem
jogador sentiu-se emocionalmente abalado
e não jogou bem - muito menos o restante
da Seleção que tomou uma sonora goleada
por 5-0. Talvez essa instabilidade emocional
tenha sido o motivo de Charlton não ter
jogado nenhuma partida na Copa do Mundo
de 1958, mesmo tendo complementado o elenco
inglês, com a camisa 20.
Os anos
posteriores a Copa do Mundo representaram
o "renascimento" do futebol de
Bobby Charlton e a confirmação de sua estrela.
O jogador é lembrado por dois hat-tricks
pelo English Team, assinalados em 1959 (na
vitória de 8-1 sobre os EUA) e em 1960 (nos
8-0 em cima do México). Além disso, em 1958,
59 e 60, a Inglaterra dividiu o título do
Campeonato Britânico com respectivamente
Irlanda do Norte, Irlanda do Norte e Irlanda
do Norte-Escócia-País de Gales e no ano
de 1960 o país foi confirmado sede da Copa
do Mundo de 1966. Em 1961 o título veio
de forma individual. Nesse mesmo ano, Bobby
casou-se com Norma Ball, fato importante
para sua reconstrução emocional. No ano
seguinte, Charlton estava no Chile disputando
a Copa do Mundo, após ter ajudado seu país
nas eliminatórias européias.
De
1962 a 1966, esticando até 1968 A
Inglaterra vencia a rival Argentina por
1-0 quando Bobby Charlton ampliou o placar.
Era a segunda partida do English Team na
Copa do Mundo, depois de ter perdido a primeira
para a Hungria por 2-1. A partida encerrou
com vitória inglesa por 3-1, mas o gol de
Bobby Charlton teve um significado especial.
Em quatro anos de Seleção com 38 partidas
totalizadas, Bobby já havia marcado a impressionante
quantia de 25 gols. Infelizmente para Bobby,
Flowers e o time inglês, o Brasil estava
no caminho pelas quartas-de-final, eliminando
a Seleção Inglesa da Copa.
No intervalo
de quatro anos que separa as duas Copas
do Mundo, Bobby Charlton ao lado de um jovem
chamado George Best re-colocou o Manchester
United na trilha dos títulos. Em 1963 veio
a tradicional FA Cup, aquela que foi perdida
pouco antes da tragédia de Munique e que
os Diabos Vermelhos não venciam desde 1948.
Em
1966 veio a apoteose de Charlton, iniciando
um triênio mágico na carreira do jogador
que era conhecido por ter "driblado
a morte". Charlton colocou a bola no
centro do campo na vitória por 2x0 sobre
o México, a primeira da Inglaterra naquela
vitoriosa Copa do Mundo - a estréia fora
um duro 0x0 contra o Uruguai. E foi de Charlton
o primeiro gol do English Team, abrindo
a vitória sobre os mexicanos. E quando um
craque precisa fazer diferença, Bobby fez,
dando a vitória da Inglaterra sobre o endiabrado
Portugal de Eusébio na semi-final. Como
em sua segunda partida pela Seleção Inglesa
e a primeira onde marcou gols, Charlton
assinalou os dois em cima dos lusitanos,
garantindo a vitória por 2-1. Não foi o
craque daquela Copa porque havia um certo
Geoff Hurst, que deu a heróica vitória por
1x0 sobre a Argentina nas quartas-de-final
e marcou três, incluindo dois na prorrogação,
em cima da Alemanha na finalíssima.
Mas
em casa, na presença da Rainha, ao lado
de seu irmão Jack, Bobby Charlton pôde subir
ao topo do mundo e levantar a Copa. No mesmo
ano, conquistou a Bola de Ouro da revista
France Football.
Bobby fez pela Inglaterra,
agora era a vez de fazer pelo Manchester
United. Em 1967 veio mais uma Liga Inglesa.
Em 1968, a Copa dos Campeões da Europa.
O
Day-After de Charlton Na Copa do
Mundo de 1970, Charlton disputou o que para
muitos foi uma das melhores partidas de
futebol de todos os tempos: Brasil 1x0 Inglaterra.
Ao final do jogo, acreditando aquela ser
sua última Copa, pediu para trocar camisas
com Pelé. Aos 33 anos, Bobby já não era
mais nenhum menino e, com a Inglaterra vencendo
a Alemanha por 2x0 nas quartas-de-final,
o craque foi substituído pelo treinador
Alf Ramsey, afim de ser poupado para as
semi-finais. Foi quando a Alemanha virou
outra das partidas mais emocionantes da
história do Mundial e eliminou Charlton
da Copa do Mundo. Bobby parou como o jogador
que mais atuou e mais marcou gols pelo English
Team.
A lenda despediu-se da Seleção
naquele ano. Três anos mais tarde, encerraria
seu ciclo no Manchester United, jogando
ainda mais uma temporada como treinador
e jogador pelo Preston North End e encerrando
definitivamente em 1975 pelo Waterford United,
disputando 31 jogos e marcando 18 gols -
nada mal para um jogador de 38 anos.
Em
1994, recebeu das mãos da Rainha a Ordem
do Império Britânico, tornando-se Sir Bobby
Charlton. Cavalheiro dentro de campo que
sempre foi, Charlton foi finalmente reconhecido
como tal.
E a Inglaterra jamais foi
a mesma depois que este homem trocou a camisa
com Pelé - camisa que não voltaria mais
a vestir nos anos seguintes.
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