LENDA - POR THIAGO LEAL

Sangue vermelho - e preto
06/03

Poucos times podem orgulhar-se de ter um ídolo máximo, incontestável. O Santos de Pelé. O Botafogo de Garrincha. O Cruzeiro de Tostão, o São Paulo de Rogério Ceni... e daí em diante complica. Corinthians? Quem seria? Marcelinho? Neto? Sócrates? Rivellino? E no Vasco? Romário? Roberto Dinamite? Ademir Menezes? No Palmeiras, seria o Ademir da Guia? Mas e o Marcos, com tudo que conquistou pelo clube? Falando em goleiros, e Oberdan Cattani e Leão, dois monstros do clube em décadas passadas? No Internacional seria Falcão? Por que não Figueroa? Mas... o líder do principal título do Colorado é o Fernandão? No Atlético Mineiro, seria Reinaldo? Dadá Maravilha? No Grêmio, bem, Jardel? Renato Gaúcho? Danrlei? De Leon?

Felizmente para a maior torcida do Brasil, seu clube do coração se enquadra na categoria de cima, nos poucos citados com propriedade. Zico é um símbolo autêntico do Flamengo e de uma das maiores dinastias que o futebol brasileiro já viu, comparada apenas a Pelé e ao Santos. Não por acaso, para muitos Zico é o maior jogador brasileiro de todos os tempos, abaixo apenas do próprio Pelé, enquanto o Flamengo da década de 80 perde apenas para o Santos dos anos 60 como o maior esquadrão da história.

Arthur Antunes Coimbra
Nascido no Rio de Janeiro em 3 de março de 1953, o pequeno Arthurzico jogava futebol de salão no Juventude de Quintino, clube formado por amigos e familiares da vizinhança do bairro de Quintino Bocaiúva. Depois de passar pelo Ríver Futebol Clube, do bairro de Piedade, também no salão, Zico, como era chamado, trilhou os passos do irmão, Edu, que já brilhava com a camisa do América, e rumou para o campo. A princípio, Zico seria levado para o mesmo clube onde o irmão mais velho atuava. Mas Celso Garcia, radialista e rubro-negro, acabou levando o menino para um teste no Flamengo, em 1967, onde, mesmo a contragosto de seu pai e irmão, começou a jogar nas categorias de base do rubro-negro. Por seu físico franzino e seu andar, ganhou o apelido Galinho de Quintino do radialista Waldyr Amaral.

Em 1971 Zico fez sua primeira partida profissional pelo Flamengo, estreando com um gol no empate em 1x1 contra o Bahia. Apesar da empolgação, Zico manteve-se no time juvenil, com planos de disputar os Jogos Olímpicos de 1972 - o que acabou não acontecendo. Em 72 Zico passou a integrar o elenco profissional do Flamengo, conquistando de cara o Campeonato Estadual que, coincidentemente, já havia ganho pelo time juvenil. Em 1976 fez sua estréia pela Seleção Brasileira. Disputou a Copa do Mundo da Argentina em 1978 com a camisa 8 - e não a 10, sua preferida. O Mundial da Argentina até hoje é contestado pelos brasileiros, que se consideram campeões morais da competição e afirmam categoricamente que o torneio foi armado.

A Era Zico
Com o Flamengo, Zico tornou a vencer os Estaduais em 1974, 78 e 79. Esses foram os títulos que antecederam a chamada Era Zico, que consagraram o meio-campo como um dos melhores jogadores de todos os tempos. Com uma Copa do Mundo no currículo - um considerável terceiro lugar - o Galinho de Quintino entrou os anos 80 mudando a história do Flamengo. Cláudio Coutinho era o treinador do time liderado por Zico, que incluía Raul Plassmann, Júnior, Andrade, Paulo César Carpegiani e Nunes. Com esse elenco, o Flamengo conquistou seu primeiro Campeonato Brasileiro, em 1980, numa final histórica contra o Atlético Mineiro - um timaço com Toninho Cerezo, Palhinha, Reinaldo e Éder Aleixo.

O título Brasileiro impulsionou o Flamengo para sua maior conquista: a Taça Libertadores da América de 1981. Zico foi o grande nome do título, marcando os quatro gols do Flamengo na final, decidida em três jogos - vitória por 2x1 sobre o Cobreloa no Rio de Janeiro, derrota por 1x0 no Chile e nova vitória por 2x0 no Estádio Centenário. O elenco do Flamengo, agora treinado por Carpegianni, tinha o reforço de Leandro, Mozer e Adílio. Zico foi o artilheiro da Libertadores com 11 gols em 14 jogos.

Com o título, o Flamengo qualificou-se para a Copa Toyota Intercontinental, pela segunda vez a ser disputada no Japão. O Liverpool seria o adversário, e atribiu-se a Zico a seguinte frase, referente a um possível favoritismo inglês: "Eles são favoritos sim, mas para o segundo lugar, o que é até muito honroso". Fato, o Flamengo massacrou o Liverpool por 3x0 e Zico foi considerado o melhor jogador da partida, mesmo não tendo marcado gol. O Flamengo também conquistou o Campeonato Estadual em 1981.

A Era Zico seguiu com força total em 1982, ano do segundo título nacional do Mengão, conquistado em cima do Grêmio. Mas aquele era o ano da Copa do Mundo da Espanha, quando a Seleção treinada por Telê Santana tinha um meio-campo formado por Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Leandro, Júnior, Oscar, Éder, Serginho... Zico marcou seu primeiro gol no Mundial na goleada por 4x1 sobre a Escócia. Fez dois nos 4x0 em cima da Nova Zelândia e, na segunda fase, abriu o placar dos 3x0 na rival Argentina.

Essa história todos estão cansados de saber. A Seleção Brasileira era favorita para vencer a Copa do Mundo depois de 12 anos. Zico jamais havia perdido uma partida com a camisa verde-amarela. Tudo parecia perfeito. A Seleção Brasileira jogava pelo empate, mas no meio do caminho havia um Paolo Rossi. Zico deixou uma imagem naqueles fatídicos 3x2 no Estádio Sarriá: a camisa rasgada por um pênalti sofrido, graças a um puxão de camisa do defensor italiano Gentile, que a arbitragem não pegou.

Um grande baque como a perda da Copa do Mundo não desnorteou Zico de seus princípios. Em 1983 o Galinho seguia inteiro para ajudar o Flamengo a massacrar o Santos de Chulapa, Paulo Isidoro e Pita e conquistar seu terceiro Brasileiro. No mesmo ano, o camisa 10 se transferiu para a Udinese, da Itália, coisa que ainda era excentricidade ao futebol brasileiro.

Pós-Era Zico
O Galinho voltou ao Flamengo em 1985. No mesmo ano, sofreu uma falta desleal de Márcio Nunes e teve os ligamentos cruzados do joelho direito rompidos - uma lesão que, se hoje assusta, imagine em meados dos anos 80. Zico teve de se submeter a uma sucessão de cirurgias e a contusão chegou a comprometer sua participação na Copa do Mundo do México, um ano depois.

Ainda em recuperação durante a Copa, Zico foi para uns injustamente responsabilizado pela eliminação da Seleção Brasileira do torneio. Nas quartas-de-final, Zico entrou durante a partida contra a França e, com o placar empatado em 1x1, perdeu um pênalti que poderia valer a classificação da Seleção às semi-finais. O evento marcou a despedida de Zico com a camisa da Seleção. No total, foram 89 partidas pela Seleção Brasileira com 66 gols marcados.

Em 1986 o Flamengo ainda conquistou o Estadual do Rio. Em 1987 veio a conturbada Copa União, conquistada também pelo Flamengo - com Bebeto, Zinho e Renato Gaúcho no elenco. A Copa União foi envolvida numa grande confusão entre CBF e Clube dos 13, que cuminou com o Flamengo não sendo oficialmente reconhecido Campeão Brasileiro pela CBF, numa confusão que até hoje causa polêmica. Foi o último título do Galinho com a camisa rubro-negra. Zico ainda ficou no Flamengo até 1989, quando despediu-se dos gramados. Sua história com o Flamengo encerrou com 731 jogos e 468 gols.

Zico envolveu-se com política em 1990, tornando-se Secretário Nacional de Esportes do governo Collor. Seu legado no Flamengo ainda rendeu um outro Brasileiro ao clube, em 1992.

Uma Nova Era
Assim como Pelé abriu mão de sua aposentadoria para fazer acontecer futebol no mercado estadunidense, Zico voltou aos gramados em um cenário pouco acostumado ao futebol: o Japão. Em 1991, o Galinho vestiu a camisa do Sumitomo Metals, time que se tornaria o Kashima Antlers. Foram três anos jogando pelo futebol japonês, com 88 partidas disputadas e 54 gols marcados - um deles, antológico, onde, após errar uma cabeçada-peixinho, Zico levantou a perna e acertou o calcanhar na bola, mandando-a para o fundo das redes. Conquistou a Copa Muroran, a Meiers Cup e a Pepsi Cup.

Reverenciado até hoje no Japão, o Galinho ganhou as alcunhas de Deus do Futebol e Pelé Branco. Em 2002, após a Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão, Zico assumiu a função de treinador da Seleção Japonesa de Futebol. Na frente dos Nippon Daihyo, o Galinho conquistou a Copa da Ásia em 2004 - um campeonato sempre difícil, e classificou o Japão em primeiro lugar para a Copa do Mundo da Alemanha, onde, num difícil grupo com Brasil, Austrália e Croácia, acabou eleminado na primeira fase.

Encerrado seu ciclo à frente da Seleção Japonesa, Zico assumiu o Fenerbahçe, da Turquia, onde conquistou o Campeonato Turco em 2007, no ano do centenário da equipe, e, recentemente, o classificou a uma inédita quartas-de-final da Liga dos Campeões. Seu apelido no país é Kral Arthur (Rei Arthur em português).

 
  ZICO - CARREIRA, TÍTULOS E ETC.

Dados Pessoais





Nome: 
Nascimento:
Local:
Honras: 

Arthur Antunes Coimbra
03/03/1953
Rio de Janeiro, Brasil
Bola de Ouro Placar - 74/80/82

Carreira e Clubes (Jogos e Gols)

1967/83
1983/85
1985/89
1991/94

Flamengo - 637 J, 438 G
Udinese - 79 J, 56 G
Flamengo - 94 J, 30 G
Kashima Antlers - 88 J, 54 G

Seleção

1976-86

Brasil - 94 J, 66 G