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Diamante de sangue
africano 01/11
A década de 1990 foi pródiga
em termos de atacantes, principalmente se
compararmos com a safra medíocre que surgiu
até agora nos anos 2000. Se lembrarmos a
década passada, teremos em atividade na
frente Thierry Henry, David Trezeguet, Gabriel
Batistuta, Alan Shearer, Ronaldo, Edmundo,
Davor Suker, Hristo Stoichkov, Michael Laudrup,
Oliver Bierhoff, Jurgen Klinsmann, Jean-Pierre
Papin, Ted Sheringham, Eric Cantona, Romário,
Rivaldo, Roberto Baggio...
Talvez
um dos melhores atacantes da década, no
entanto, não tenha tido o merecido reconhecimento
ao resto do mundo: o liberiano George Manneh
Oppong Ousman Weah.
É óbvio que o
máximo que um jogador de futebol pode almejar
na carreira é uma Copa do Mundo. Todos os
nomes listados no primeiro parágrafo tiveram
suas oportunidades de jogar uma Copa do
Mundo - à exceção de Cantona -, alguns indo
até muito bem, inclusive ganhando o torneio.
Se não tiveram a sua na Copa do Mundo, o
fizeram na Eurocopa. O futebol de clubes
europeu já era o mais importante do mundo,
mas sua grande vitrine para os demais continentes
ainda eram as Seleções nacionais. Dessa
forma, um Alan Shearer aparecia mais para
o mundo com a Seleção Inglesa que um Ryan
Giggs jogando apenas pelo Manchester United.
Talvez
esse tenha sido o (pequeno) encosto na carreira
de Weah. A Seleção Liberiana nunca foi praticante
de um bom futebol, tanto que na carreira
de Weah pela Seleção a equipe nacional só
se classificou duas vezes à Copa Africana
de Nações: 1996, no seu auge, e 2002, já
no fim de sua carreira. E em ambas caiu
fora na primeira fase.
Seleção Nacional
à parte, Weah foi um atacante sensacional,
jogando acima do nível de muitos craques
que tinham as suas Seleções como suporte.
Estrela
solitária Assim como a alcunha da
bandeira nacional liberiana, George Weah
certamente se sentia uma "estrela solitária"
em sua carreira juvenil na África, onde
era um jovem promissor de brilho visivelmente
maior que os demais. O jovem iniciou a carreira
pelo Young Survivors em sua terra natal,
conciliando a carreira de jogador com o
emprego que ajudava a sustentar sua família,
como operador de telecomunicações. Passou
por mais três clubes liberianos, entre eles
os famosos Invincible Eleven, e em seguida,
conseguiu ser eleito melhor jogador da Liga
Liberiana e transferiu-se para um dos principais
clubes do continente, o Tonnerre Yaoundé
de Camarões. Mas o nível de Weah exigia
que ele trilhasse o caminho de talentos
africanos como Roger Milla e Abédi Pelé
e rumasse para a Europa.
Um amigo
de um amigo meu... O caminho natural
para que um jogador africano entre no mercado
europeu é o futebol francês. Com Weah não
foi diferente. Quem se interessou por Weah
foi um jovem treinador francês chamado Arsène
Wenger, à época comandando o AS Monaco.
Wenger era amigo do treinador da Seleção
Camaronesa, que o chamou para ver o menino
Weah jogar. Wenger viu e aparentemente gostou
do que viu. No mesmo ano Weah estava no
Principado para defender o AS Monaco. E
lá teve a ajuda de mais dois amigos: Mark
Hateley e Glenn Hoddle. Os dois jogadores
ingleses do Monaco foram o alicerce para
Weah no clube por um motivo simples: George
não falava francês, apenas inglês. Hoddle
e Hateley seriam os melhores intérpretes
possíveis para o menino porque estavam ali,
com ele, dentro do campo.
Da mesma
forma que amigos lhe ajudavam, Weah procurou
ajudar seus amigos também. Explicou a Wenger
que havia bons jogadores na Libéria, mas
eles não tinham muitas oportunidades. E
Wenger ofereceu novamente a mão, dizendo
"Traga seus amigos. Se forem bons jogadores,
ficarão comigo... se não voltarão."
Foi assim que Christopher Wreh conseguiu
contrato com o Monaco.
A carreira
de Weah se desenhava da maneira ideal. Ia
conquistando amizades que o permitiam perceber
seu talento e dar-lhe as oportunidades que
precisava. Com o Monaco, Weah venceu a Copa
da França de 1991. Financeiramente, o Monaco
era um time de médio porte e estava um pouco
abaixo de alguns clubes franceses, como
o Olympique de Marselha, Bordeaux, St. Etienne
e o Paris Saint-Germain. E foi justamente
para o clube da capital francesa que Weah
rumou.
O Melhor Jogador do Mundo Nenhum
jogador não-europeu havia jamais conquistado
a Bola de Ouro ou mesmo a Bola de Prata
e a de Bronze. Os únicos jogadores nascidos
em outro continente a conquistar a honra,
Alfredo Di Stéfano, Omar Sivori e Eusébio,
tinham sangue e cidadania européia. E certamente
Weah não vislumbrava essa possibilidade
quando chegou ao Paris Saint-Germain em
1992. Nos três anos que Weah passou em Paris,
marcou 32 gols e levou o time local ao seu
segundo e último título da Ligue 1 francesa,
o mais importante já conquistado pelo Paris
Saint-Germain. A conquista veio em 1994.
A temporada 1995-96 não seria concluída
no Paris Saint-Germain. Valorizado, George
Weah foi comprado pelo Milan. Subseqüentemente
veio a surpresa... o liberiano venceu a
Bola de Ouro de melhor jogador na temporada
européia e levou junto o prêmio da FIFA
de Melhor jogador do Mundo, algo quase impossível
para jogadores que não têm destaque numa
Seleção Nacional.
No agradecimento
do prêmio, Weah dedicou a honraria a seu
antigo treinador Arsène Wenger: "Wenger
fez de mim não só um jogador de futebol,
mas também o homem que sou hoje em dia".
Os
prêmios vieram juntos com o título da Série
A italiana de 1995-96. Weah não era só um
jogador campeão e premiado internacionalmente,
mas uma grande estrela na constelação que
incluía Zvonimir Boban, Roberto Baggio,
Franco Baresi, Demetrio Albertini e Alessandro
Costacurta.
Um gol inesquecível de
Weah pelo Milan e talvez a maior demonstração
de sua genialidade aconteceu num confronto
contra o Verona, pelo Campeonato Italiano
de 1996. Num escanteio mal-cobrado do Verona,
Weah dominou a bola em sua grande área e,
em 12 segundos, havia passado por três jogadores
- os únicos que conseguiram se postar em
seu caminho, devido a sua velocidade - e,
da entrada da área do Verona, marcou um
golaço.
O mesmo ano fez Weah provar
um pouco do gosto amargo do futebol europeu.
Numa partida da Liga dos Campeões, o jogador
desentendeu-se com o português Jorge Costa,
do Porto, que teria lhe insultado de forma
racista. Costa saiu com um nariz quebrado
e Weah com sua honra e fair play manchados.
Irritado, Weah tentou se explicar com um
discurso humanista sobre preconceito, e
acusou de forma indireta Jorge Costa de
não amar o esporte, mas praticá-lo apenas
por dinheiro.
O acontecimento logo
caiu no esquecimento, uma vez que o liberiano
desenvolveu muito bem sua carreira pelo
Milan. Weah ainda conquistou o Campeonato
de 1998-99 pelo Milan e ajudou o rossonero
a chegar a uma final da Copa da Itália.
Independentemente
de títulos, foram 114 jogos e 47 gols com
a gloriosa camisa do clube italiano.
O
declínio na carreira É inevitável
que isso aconteça com qualquer jogador,
e com Weah não foi diferente. O Milan decidiu
emprestá-lo ao Chelsea em 1999-00 - Weah
queria jogar pela Roma, mas o empréstimo
foi feito ao clube inglês, pois Adriano
Galliani, vice-presidente da agremiação
italiana não queria dar de mãos beijadas
um jogador tão valioso a um rival e enfortecê-lo.
O lugar que fora ocupado por Weah também
estaria sendo ocupado à altura, por um jovem
ucraniano chamado Andriy Shevchenko, e a
odisséia rossonera com seus craques estrangeiros
continuaria a ser escrita.
Weah não
teve o devido aproveitamento na Inglaterra,
passando por Chelsea e Manchester City.
Depois de mais uma passagem rápida pela
França, pelo Olympique de Marselha, Weah
se aposentou em 2002 jogando pelo Al-Jazeera
dos Emirados Árabes Unidos e pela Seleção
Liberiana.
O político e o humanista "O
homem" melhor que Wenger teria ajudado
Weah a se tornar pôde ser visto ao longo
de sua carreira como jogador. Em 1994, ajudou
a fundar o time Junior Professionals, em
Monróvia, sua cidade natal. O clube não
tem fins lucrativos e a única exigência
para participar da escolinha do Professionals
é a presença escolar. Em 1998 lançou o CD
Lively Up Africa, com o cantor Frisbie Omo
Isibor e participação de diversos jogadores
africanos de futebol. E, ao pendurar suas
chuteiras, Weah poderia ter ficado na Europa,
mas rumou para seu país para envolver-se
com causas humanistas. Embaixador da Boa-Vontade
pela Unicef na Libéria, Weah recebeu da
ESPN Internacional o prêmio Arthur Ashe
Courage, por seus esforços sociais na Libéria.
Um
outro grande passo para Weah foi a candidatura
à presidência da Libéria em 2005. Para a
eleição, Weah fundou o partido Congresso
pela Mudança Democrática. O grande motivo
para a participação de Weah nas eleições,
segundo o próprio, foi a revolta e amargura
causada pela Guerra Civil que seu país viveu
em 1999, quando ele estava na Itália e na
Inglaterra e teve de ver pela televisão
a destruição de sua terra.
Weah perdeu
as eleições, mas chegou a levá-las até o
segundo turno. O Congresso pela Mudança
Democrática resiste e hoje conta com três
representandes no Senado e 15 na Casa das
Representações - uma espécie de Plenário
liberiano. Mais uma vitória de Weah.
Vida
pessoal Casado com Clar Weah, o ex-jogador
tem quatro filhos filho, George Weah Jr.,
Martha, Timothy George e Jessica - esta
última adotada na Jamaica. O herdeiro mais
velho tentou jogar pelo Milan e até defendeu
o juvenil rossonero; e também chegou a jogar
pelos juvenis do Slavia Praga e, durante
um breve período onde morou nos EUA junto
com os pais, treinou pela Seleção Estadunidense
Sub20 junto com Freddy Adu. Weah Jr. não
foi contratado por nenhum dos dois clubes
e atualmente está sem time. Talvez não siga
carreira de jogador, mas, quem sabe seja
melhor assim. Seria um grande peso nas costas
carregar o nome de um dos maiores jogadores
africanos de todos os tempos.
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