MEMÓRIA - POR ALEXANDRE SAMPEDRO

Mortes imortalizadas
18/02

No clássico de Manchester, disputado no último final de semana e vencido pelo City por 2x1 sobre o United, o clube de Old Trafford desfilou com um uniforme especial, sem patrocínios, nomes e com a numeração fixa, de 1 a 11. Não se trata, porém, de nenhuma revolução ou rebelião contra o fornecedor de material esportivo. Tratou-se de uma homenagem a uma das maiores tragédias do futebol, que completou 50 anos: o desastre aéreo de Munique.

O início de uma lenda
Em novembro de 1945, assumiu o comando da equipe uma figura que se tornaria quase mitológica: Matt Busby, com apenas 36 anos de idade. Após sua indicação, Busby exigiu centralizar as decisões em relação ao time, algo incomum na época, como escolher quais jogadores contrataria e dirigir as sessões de treinamento da equipe. Busby tentou implementar esta função de "manager" no Liverpool meses antes, mas os diretores não apostaram nas idéias inovadoras de Busby. Assim, o caminho para Manchester estava aberto.

Suas primeiras ações no comando do United foram para fortalecer a comissão técnica, e as resultados foram quase imediatos, com três vice-campeonatos da Liga em 1947, 48 e 49, além do título da FA Cup em 1948. A base da equipe era formada por jogadores que estavam no clube antes de sua chegada, como Stan Pearson, Allenby Chilton, Jack Rowley e Charlie Mitten.

Na temporada 1951/52, veio o primeiro título da Liga, e com a conquista veio a certeza que era o momento de uma renovação no elenco, que passava a ser altamente experiente. Desta forma, Busby adotou uma política de privilegiar as categorias de base, promovendo jogadores à equipe principal sempre que possível. O processo de renovação foi lento, mas começou a dar frutos imediatamente. A primeira conquista da Liga veio em 1956, com uma média de idade de apenas 22 anos, tendo marcado 103 gols na campanha vitoriosa. Era o início de um marco no clube e no futebol inglês.

Busby Babes
A política de apostar em jovens de talento e lapidar grandes jogadores passou a ser chamada de Busby Babes, referência ao técnico e à sua equipe com baixíssima média de idade. O primeiro dos Babes a tornar-se um ícone foi Duncan Edwards, que fez sua estréia com apenas 16 anos, em 1953. Edwards era um meio campista, mas podia atuar em todas as posições, e aqueles que o viram jogar não tem dúvidas ao afirmar que tratou-se do maior jogador de futebol que já existiu.

Em 1956/57, o United conquistou novamente a Liga e tornou-se o primeiro clube do país a disputar na Copa dos Campeões, sendo eliminado apenas pelo poderoso Real Madrid nas semifinais. O talento do grupo de jovens fez-se valer pela goleada de 10x0 sobre o Anderletch.

A temporada seguinte, a de 1957/58, parecia amadurecer o sonho de Busby de conquistar a Copa dos Campeões. À época, a Seleção Inglesa era baseada no United. Porém, uma tragédia estava no meio do percurso.

A Tragédia de Munique
Em 6 de Fevereiro de 1958, o United enfrentou o Estrela Vermelha pelas quartas-de-final da Copa dos Campeões em Belgrado, obtendo um empate em 3x3 e a vaga para a fase seguinte. Na viagem de volta para a Inglaterra, o avião fez uma parada para reabastecer no aeroporto de Munique, na Alemanha. Sob neve, o avião, modelo Airspeed, efetuou três tentativas de decolagens. Na última delas, ocorreu uma repentina desaceleração da aeronave causada por excesso de neve na pista, que atravessou os limites da pista e chocou-se com uma residência.

O acidente tirou a vida de sete jogadores imediatamente - Geoff Bent, Roger Byrne, Eddie Colman, Mark Jones, David Pegg, Tommy Taylor e Liam Whelan - e outros quinze passageiros, incluindo jornalistas, torcedores, pilotos e membros da equipe técnica do clube. O arqueiro Harry Gregg conseguiu manter a consciência após o choque e salvou dois colegas: Dennis Viollet e Bobby Charlton, que anos mais tarde seria o capitão da Inglaterra na conquista da Copa de 1966. Greg salvou também uma mulher grávida e seu filho.

Duncan Edwards, Matt Busby e Jonny Berry estavam em grave estado, e Edwards faleceu três semanas depois no hospital. Jonnhy Berry e Jackie Blanchflower sobreviveram, mas as lesões os impediram de voltar aos gramados. Haviam 44 passageiros no avião, e 23 morreram. A lista de mortes poderia ter um nome a mais, mas o lendário Matt Busby recuperou quase que miraculosamente no hospital depois de dois meses de internação, após os médicos não darem ao técnico muitas chances de sobreviver.

Busby Babes, parte 2
A tragédia colocou em dúvida, obviamente, o futuro do clube. Porém, no início da década de 60, Busby reconstruiu o elenco do United, contratando jogadores como Denis Law e Par Crerand, além de manter seu genial trabalho com as categorias de base. A segunda safra dos Busby Babes revelou para o mundo ninguém menos que George Best. Com Denis Law, George Best, Bobby Charlton e Bill Foulkes, estes dois sobreviventes do acidente, o United chegou aos títulos da FA Cup em 1963, a Liga em 1965 e 1967, além da sonhada Copa dos Campeões em 1968. Matt Busby encerrou seu brilhante e inovador trabalho no United em 1969.

50 anos depois
As homenagens pelos 50 anos da tragédia correram por toda Inglaterra. Porém, nem tudo são flores. Barry Navidi está atualmente desenvolvendo um roteiro de um filme em Hollywood sobre o acidente, ato que é duramente criticado por imprensa e sobreviventes, uma vez que nenhum deles foi consultado sobre o evento, fato que gera grandes dúvidas sobre a motivação do trabalho, bem como a assertividade do acontecimento.

O grande clima de comoção vivido no início de fevereiro, porém, parece ignorar essa polêmica. Afinal, não foi apenas um acidente aéreo com vítimas. Foi um grande desastre esportivo e humano.