MEMÓRIA - POR ALEXANDRE SAMPEDRO

Craque do Tribunal
28/03

Derrotar um forte adversário é algo comum no futebol. Muitas vezes, a força dominante não é capaz de superar um rival com um poder inferior, ocasionando as famosas "zebras". Porém, até 1995, ninguém imaginava que um simples jogador de futebol poderia vir a derrotar os altos escalões judiciários e esportivos para mudar radicalmente a abordagem contratual que regulamentava o esporte.

O início
Jean-Marc Bosman atuava pelo FC Liège, um médio clube da Bélgica que disputava a Jupiler League, primeira divisão do país. Seu contrato terminaria ao final da temporada 1989/90, e Bosman intencionava transferir-se para o Dunkerque, da França, com quem havia acordado os termos contratuais. Porém, o Liège não aceitou os valores oferecidos pelo clube francês, e mesmo com o contrato de Bosman tendo terminado, recusou-se a liberar o atleta. Como conseqüência, o Liège afastou Bosman da equipe principal e reduziu seu salário em 60%, agravando ainda mais o caso.

A Batalha Judicial
Em Agosto de 1990, Bosman encaminhou seu caso para a Corte Européia de Justiça, em Luxemburgo, sob a justificativa de que as regras que o impediam de transferir-se para o Dunkerque ao final de seu contrato eram incompatíveis com o Tratado de Roma, cuja regulamentação é favorável à liberdade de movimentação de trabalhadores.

Ao mesmo tempo, em Novembro de 1990, o Tribunal Belga autorizou a trasferência de Bosman para o Dunkerque livremente. A Federação Belga apelou da decisão imediatamente. Porém, em Maio de 1991, a Corte Européia de Justiça declarou que Bosman tinha o direito de transferir-se.

A batalha fora dos gramados durou mais de cinco anos. Em março de 1995, o apelo do Liérse e da Federação Belga junto à FIFA falhou, fato que levou Bosman, dois meses depois, a pedir um milhão de dólares como indenização na Corte Européia de Justiça. Em Novembro, a UEFA divulga uma carta de apoio em favor de Bosman, fato que foi apoiado pela FIFA. Em 15 de Dezembro de 1995, Bosman venceu o caso, sem possibilidade de novos recursos.

A Lei de Bosman
A Lei de Bosman foi construída pela consolidação dos três processos legais em separado que envolveram Bosman, contra a Federação Belga, o Lièrse e a UEFA, todos vencidos pelo jogador.

A regulamentação concede aos jogadores a liberdade de movimentação e de assossiação. Desta forma, qualquer jogador da União Européia tem o direito de transferir-se ao final de seu contrato, não devendo desta forma qualquer compensação ao clube que detinha seus direitos federativos. Além disso, um jogador pode assinar um pré-contrato com outra equipe em uma transferência gratuita seis meses ou menos antes de seu vínculo se encerrar.

A Lei de Bosman também proibiu que as ligas nacionais nos países membros da União Européia e da UEFA estabelecessem cotas de jogadores estrangeiros. Na época, a UEFA proibia que clubes que disputassem as competições continentais possuíssem mais de três atletas advindos de outros países, sendo comunitários ou não. Muitas ligas nacionais também aplicavam esta medida. Considerada como ação discriminatória, esta prática foi alterada para uma limitação apenas de jogadores não-comunitários, ou seja, originários de países que não são membros da União Européia. Este tipo de legislação é diferente em cada país, atendendo às leis trabalhistas de cada nação.

A Lei hoje
A iniciativa de Bosman surtiu um profundo efeito nas relações trabalhistas em toda União Européia e tornou-se padrão para as demais constiuições esportivas formuladas ao redor do planeta. No Brasil, houve algo similar, traduzida com a famosa Lei do Passe. A iniciativa pioneira de Bosman está enraizada no futebol contemporâneo, uma vez que transferências em final de contrato são muito comuns e atingem jogadores de todos os níveis.

Jean-Marc Bosman marcou seu nome na história do futebol Mundial ao vencer um duelo que, para os direitos trabalhistas dos jogadores, se tornou tão importante quanto uma final de Copa do Mundo. Para Bosman, foi sinônimo de uma imortalização que ele jamais conseguiria por seu talento nos gramados.