TÁTICA - POR ALEXANDRE SAMPEDRO

Liverpool - Grande elenco, grande confusão
01/11

O Liverpool foi, seguramente, um dos clubes que melhor soube movimentar-se no mercado de transferências. Apesar de contar com uma base que havia chego à duas finais de Liga dos Campeões em três anos, estava claro que a falta de opções para o técnico Rafa Benítez havia eliminado as chances de conquista da Premier League no mesmo período.

Para encontrar a profundidade necessária para superar rivais claramente superiores como eram Manchester United e Chelsea, os Reds buscaram Fernando Torres, Andriy Voronin, Yossi Benayoun, Ryan Babel e Lucas. Com as contratações, que ultrapassaram os 45 milhões de libras, Benítez teria em mãos um elenco melhor em relação aos anos anteriores de sua gestão, e poderia aplicar melhor soluções táticas para cada adversário, testar variações e gerar um nível de imprevisibilidade que atuaria a seu favor.

Porém, até o presente momento, o Liverpool não engrenou. Rafa Benítez gosta de rotacionar seu elenco continuamente, estratégia que deixa os jogadores menos cansados ao longo da temporada, mas que prejudica em termos de entrosamento e identidade. Arsenal e Manchester United dispararam na ponta da tabela, e alcançá-los dependerá agora de uma rápida resposta do Liverpool.

As opções de Benítez
Esta freqüente alteração em seu time torna quase impossível definir quais são os jogadores considerados titulares para Benítez, até porque isso depende de qual opção tática o técnico espanhol adotará. Até o momento, a equipe tem atuado com sua linha defensiva que foi comum na última temporada: Reina; Finnan, Carragher, Agger (Hyypia) e Riise. O lateral norueguês funciona como um ala, enquanto o irlandês Finnan raramente sobe ao ataque, fechando os espaços defensivos.

A grande dúvida de Benítez está no meio campo. Mascherano parece intocável primeiro volante e Gerrard é, inegavelmente, dono do time. Porém, Benítez ainda busca a melhor formação para os jogadores ofensivos. Se o capitão Gerrard é uma escolha certa, sua posição ainda gera confusão. Claramente, seu melhor rendimento é como box-to-box, atuando centralizado, recuando para dar fluência ao time na saída de bola e indo ao ataque para lançar, passar e finalizar.

Legenda: Reina (25); Riise (06), Agger (5), Carrager (23), Finnan (3); Mascherano (20), Alonso (14) e Gerrard (8); Kuyt (18), Voronin (10) e Torres (09)

Em algumas partidas, no entanto, Benítez preferiu escalar Momo Sissoko ao lado de Mascherano, deixando Gerrard adiantado, com três atacantes: Fernando Torres no comando do ataque, com Voronin e Kuyt abertos nas pontas.

Esta formação prejudica a criação dos Reds, já que Sissoko e Mascherano não tem uma grande qualidade no passe e Gerrard tem de atuar de costas para a meta adversária, deixando de obter vantagem de seus fortes remates. O retorno de Xabi Alonso, lesionado, deve aumentar ainda mais a indecisão de Benítez. Vale lembrar ainda que Lucas, ex-Grêmio, executa a mesma função do inglês e do espanhol.

Legenda: Reina (25); Riise (06), Agger (5), Carrager (23), Finnan (3); Mascherano (20), Sissoko (22) e Gerrard (8); Kuyt (18), Voronin (10) e Torres (09) 

Se as opções na região central do gramado sobram, o mesmo não ocorre com os companheiros de ataque de Fernando Torres, claramente único com status de titular no setor ofensivo. Se o ucraniano Voronin justificou sua contratação com boas exibições no início da temporada, o holandês Babbel, jovem promissor, ainda não teve oportunidades para desenvolver melhor seu talento. O israelense Benayoun, que comprovou ter sido uma boa aposta, tem atuado improvisado como um ala pela esquerda, a posição mais carente do elenco atual dos Reds.

Como poderia melhorar
Primeiramente, o brasileiro Fábio Aurélio, homem de confiança de Benítez desde os tempos que dirigia o Valencia, poderia ser utilizado na lateral esquerda, com Riise deslocado para a ala esquerda do ataque. No centro, Mascherano, Xabi Alonso e Gerrard seriam os titulares, com Lucas exercendo qualquer um dos papéis de criação como reserva.

Com Riise na esquerda, o holandês Babbel deveria ser efetivado na direita, uma vez que seu potencial técnico é muito maior que o de Voronin. Assim, Fernando Torres ficaria no comando do ataque, com as aproximações de Babbel, Riise e Gerrard, com Alonso ditando o ritmo ao lado do capitão. Essa opção por Riise daria ao técnico Benítez uma maior quantidade de jogadas pelo lado esquerdo, com tabelas entre o norueguês e Fábio Aurélio. Na direita, Babbel contaria com a ajuda de Xabi Alonso, que por sua vez teria a compania de Gerrard nas jogadas centrais. O capitão, como box-to-box tradicional, ocupa os espaços vazios e cria a partir disso.

Para substituir durante uma partida, Benítez teria à sua disposição Sissoko, que dá um maior poder de marcação, Lucas, que ajudaria a dar fluência, Benayoun e Voronin, que tem como principal característica a velocidade e Peter Crouch e Kuyt para o comando do ataque. Crouch ainda possiblita um melhor aproveitamento do jogo aéreo.


Legenda: Reina (25); Fábio Aurélio (12), Agger (5), Carrager (23), Finnan (3); Mascherano (20), Riise (6), Alonso (14) e Gerrard (8); Babbel (19) e Torres (09)

Para salvar a temporada
Estas instabilidades táticas geraram, além da campanha irregular na Premier League, uma condição difícil na atual Liga dos Campeões, com apenas um ponto após três partidas. Se a campanha na principal competição européia salvou os Reds nas últimas temporadas, o vexame de ser eliminado na fase de grupos com o atual elenco deve levantar sérias questões sobre o trabalho de Benítez.

A opção por adiantar Riise é uma solução plausível diante do elenco atual, mas Fábio Aurélio vive à voltas com problemas físicos. O Liverpool precisa voltar ao mercado e buscar com pontualidade o jogador que falta em seu plantel. E, acima de tudo, Rafa Benítez precisa encontrar logo a melhor forma de sua equipe jogar.