THIAGO LEAL - ARQUIVOS 2009

Quero ser grande
01/10

O que faz de um clube de futebol... grande? Essa pergunta causa muita polêmica no Brasil, uma vez que todo clube quer ser grande. Chamar um clube como Coritiba, Goiás, Sport Recife ou Bahia, três campeões brasileiros, de clubes de médio porte, por exemplo, certamente vai acirrar os ânimos de seus respectivos dirigentes e treinadores. Ninguém quer ser médio, muito menos pequeno. E na semana passada o zagueiro André Dias, do São Paulo, cutucou a onça de vara curta ao dizer que o Flamengo não seria grande, pois não possui estádio nem estrutura de clube grande.

O que me leva a perguntar mais uma vez: o que faz de um clube de futebol grande?

A resposta mais óbvia seria títulos. Mas o Paysandu e o Remo, ambos com dezenas de campeonatos paraenses nas costas, seriam então considerados grandes? As torcidas dos dois devem vê-los assim. Mas não os demais torcedores e críticos do restante do país. Tradição não se encaixa como resposta também, já que vai aparecer gente dizendo que o América do Rio, o América Mineiro, o Bangu e o Guarani têm tradição - este último até título brasileiro possui. Torcida? Então Flamengo e Corinthians deveriam ser considerados maiores que Milan e que Real Madrid, e, venhamos e convenhamos, não são. Dinheiro? Hoje em dia tem muito clube pequeno com mais dinheiro que clubes grandes - o Red Bull Brasil, por exemplo, é um clube rico. E você nem o conhece... deve ser considerado grande? Não.

André Dias teria razão? Seria a estrutura? Dificilmente.

Se Corinthians ou Flamengo possuem pouca estrutura, tem muito clube pequeno com bastante estrutura, principalmente porque hoje em dia pipocam no Brasil as chamadas incubadoras de craques. Clubes com uma mega-estrutura. Largo centro de treinamento, vários campos, concentração, alojamento... mas na prática não são grandes.

Bom, a pior coisa que você pode fazer nessa situação é perguntar a um torcedor do São Paulo, já que existe a possibilidade deste responder que grande, no Brasil, apenas o São Paulo, já que tem três Mundiais, três Libertadores, seis Brasileiros... ninguém pode culpar os caras por terem títulos e, por isso, se acharem melhores que todo mundo. Seria como o Brad Pitt, que "pega" a Angelina Jolie, dizer que a única mulher gostosa do mundo é a dele. P*rra, quem seria eu para discordar?

Pensemos, então, no equivalente europeu. Qual seria o torneio europeu equivalente à Libertadores? Copa/Liga dos Campeões. E quem é maior? O Arsenal ou o Nottingham Forest? O Arsenal, certo? Mas o Nottingham Forest possui duas Copas dos Campeões. O Arsenal, nenhuma. Logo dá para concluir que esse tipo de analogia - títulos grandes = clube grande - não faz sentido. Ou alguém aí iria considerar o São Caetano maior que o Corinthians, caso o Azulão tivesse conquistado a Libertadores em 2002? Bom, muito provavelmente são-paulinos e palmeirenses diriam que, sim, o São Caetano é maior que o Corinthians. Mas isso seria uma opinião mais baseada na provocação que na razão.

No final das contas, o título "clube grande" simplesmente existe. Pelo menos hoje em dia, na Era Comum, isto já foi estabelecido. No Brasil, são 12. Os quatro maiores de São Paulo, os quatro maiores do Rio de Janeiro, os dois maiores de Minas e os dois maiores do Rio Grande do Sul. Como essa escolha se deu? Através dos fatores títulos, torcidas e mercado de décadas atrás. Antes mesmo de haver competição nacional. Era uma época onde clube só disputava campeonato estadual. Cada estado tinha o seu. E, inevitavelmente, os estaduais considerados mais importantes seriam aqueles das regiões economicamente dominantes no país. São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Porque eram eles que faziam a história acontecer. Porque eram eles quem ditavam as regras e distribuíam as notícias pelo restante do país. Eram economicamente superiores aos demais e tinham condições de manter os craques em seus clubes - o que fazia com que os títulos acontecessem em maior escala.

Isso definiu o fator clube grande e é algo que a história dificilmente pode mudar, pelo menos a curto e médio prazo. Tanto é que recentemente o Atlético Paranaense é um clube bem melhor sucedido que o Atlético Mineiro. Possui um Campeonato Brasileiro e um vice-campeonato brasileiro bem mais recente. Possui mais títulos estaduais. Mais estrutura. Possui estádio! Mas na prática, se alguém perguntar, críticos e torcedores considerariam quem maior? O mineiro.

É inevitável. Simplesmente existe. E deixar de existir ou mudar sua existência não é tão simples assim.

Coma Induzido
14/09

Há algum tempo, não posso precisar bem quanto, a revista Placar colocava a parceria entre Fluminense e Unimed na UTI, referindo-se à crise vivida entre clube e patrocinador, especialmente pelos resultados ruins que a equipe vinha tendo então recentemente.

A relação entre Fluminense e Unimed já dura dez anos. A companhia médica, uma das maiores, senão a maior do Brasil, estava presente quando o Fluminense venceu o Campeonato Brasileiro da Série C de 1999 e também nas belas campanhas que o clube tricolor desempenhou na Copa João Havelange, em 2000, e Campeonato Brasileiro da Série A em 2002, ficando no quarto lugar. Houve ainda o Campeonato Estadual do Rio de 2002 (sob júdice) e um momento de crise, vivido em 2003, com ameaça de retorno à Série B.

Depois da turbulência, a recuperação, com um Campeonato Brasileiro razoável em 2004 e o título estadual de 2005. Mas no próprio ano de 2005 veio o fracasso na Copa do Brasil, após perder a final para a zebra Paulista de Jundiaí. E em seguida o fracasso em alcançar a Libertadores, ao perder na última rodada para o Palmeiras, sendo ultrapassado na tabela pelo próprio Verdão e ficando em quinto lugar.

Em 2006, depois de ser eliminado da Copa do Brasil na semi-final pelo Vasco, o Fluminense viveu seu momento mais turbulento, com nova ameaça de rebaixamento para a Série B. Foi a época em que a parceria com a Unimed passou a ser publicamente criticada e frequentemente era discutido na mídia especializada histórias de que certos jogadores tinham salário bancado pela Unimed, enquanto os demais pelo próprio clube, o que geraria um racha no elenco.

A bonança veio com a conquista da Copa do Brasil de 2007. Um Campeonato Brasileiro impecável colocou o Flu em quarto lugar, o que lhe garantiria uma vaga na Copa Libertadores mesmo sem ter vencido a Copa do Brasil. Estrelas como Thiago Neves e Thiago Silva brilhando. O Fluminense estava preparando-se para conquistar a Libertadores 2008. Armou time para tal. Vieram Conca, Washington, Dodô, Leandro Amaral... uma campanha sensacional, deixando para trás nomes consagrados como São Paulo e Boca Juniors. O Fluminense chegou à final do torneio com uma das melhores campanhas da história. Mas a dois passos do paraíso, o sonho acabou. O Flu perdeu a Libertadores para o rival improvável – a LDU. Viveu em 2008 nova ameaça de rebaixamento, após a ressaca da perda do título da Libertadores. Escapou nas rodadas finais com Renê Simões. A situação agora é semelhante. Ameaça de rebaixamento, parceria com a Unimed tida insustentável e, para muita gente, tudo acaba aqui: o Fluminense cai e a parceria acaba. Eu sinceramente, tenho minhas dúvidas. Não acho impossível que o Flu se recupere nem que a parceria prossiga.

Mas me pergunto o que será deste complicado ciclo da parceria Fluminense/Unimed em 2010, se é que continua. Tempestade ou bonança?