TOPETUDO DE BOLA - POR THIAGO LEAL

O que Johann Cruyff, Michel Platini, Sócrates, Roberto Baggio e Gabriel Batistuta têm em comum? Simples. Eles nunca venceram a Copa do Mundo. De qualquer forma, são craques incontestáveis e importantíssimos para o futebol de seus respectivos países.

E imagina se o fator vencer Copa do Mundo determinasse algo... então, o que seria daqueles jogadores sensacionais que jamais JOGARAM um Mundial? Aqueles que nasceram num lugar de pouca tradição futebolística e contam ou contavam com uma Seleção Nacional capenga jamais tiveram a oportunidade de disputar o Mundial - e são infinitamente superiores a muitos de seus campeões. Denílson e Luizão que o digam...

 
  TOP 11 - MAIORES QUE O MUNDO (16/04/08)

11 - Evaristo de Macêdo - Atacante - Brasil
A lista começa com um brasileiro que enfrentou um sério problema chamado concorrência. Profissional entre o final da década de 1950 e início dos anos 1960, Evaristo teve poucas chances na Seleção devido a alguns nomes que tomavam parte do escrete canarinho: Pelé, Didi, Vavá, Zito, Pepe, Dida, Amarildo, Jair da Costa, Coutinho, Garrincha. Dessa forma, Evaristo foi convocado apenas 14 vezes e marcou oito gols - desses, cinco foram numa única partida, contra o Peru, goleada brasileira por 9-0. A despeito de não ser dos preferidos da Seleção Brasileira, Evaristo provou que teve mais valor que muita gente que vestiu a camisa amarela: mandou-se para Espanha onde foi, somente, ídolo no Barcelona e, em seguida, no Real Madrid, ao lado de nomes como Di Stéfano e Puskas. Não é todo jogador que chega à Espanha, consegue jogar pelos dois principais clubes (e rivais) do país. E o estranho disso tudo é que esse talento de Evaristo no exterior é o que parecia distanciá-lo da Seleção. Ele estava longe, não era acompanhado pelos treinadores. Hoje em dia seria justamente o inverso. Vai entender... Treinador com uma carreira prolífica (e um tanto quanto louca), Evaristo disputou a Copa do Mundo de 1986 como técnico pelo Iraque.

10 - Massimo Bonini - Volante - San Marino
Parece capricho. Bonini poderia, tranqüilamente, ter defendido a Seleção Italiana e, quem sabe, ter disputado e ter vencido a Copa do Mundo de 1982. Pelo juvenil, chegou a atuar pela Itália. Mas não quis vestir a camisa da Azzurra como profissional. Ao invés disso, preferia defender seu "país" de origem: aquele bairro que atende pelo nome de San Marino e que é mais conhecido no Brasil pelo autódromo de Ímola, onde morreu Ayrton Senna. Em sua carreira clubística, passando por equipes menores da Itália, teve seu auge na poderosa Juventus da década de 80. Com a Vecchia Signora, conquistou três Campeonatos Italianos, uma Copa da Itália, uma Supercopa da Itália, uma Copa dos Campeões da UEFA (famosa pela Tragédia de Heysel) e uma extinta Copa dos Vencedores de Copa. Teve um total de 192 jogos com a Juve e marcou cinco gols. É considerado não apenas o melhor jogador de futebol da história de San Marino (o que não seria difícil, já que disputa o posto com guardas de trânsito e açougueiros), mas também o melhor atleta do principado. Não fosse louco e tivesse assumido essa postura romântica, certamente o jovem Bonini brilharia também com a gloriosa camisa azul italiana.

9 - Dixie Dean - Centroavante - Inglaterra
Talvez o melhor jogador inglês de todos os tempos, Dixie é do tempo que nem número nas costas das camisas se usava: sua carreira cobriu de 1923 a 1939. Desse período, disputou 16 partidas pela Seleção Inglesa, entre 1927 e 1932. E marcou 18 gols, a melhor média da história da Seleção. OK, pouco número para se tirar idéia a respeito do cidadão. Então, vamos nos basear por sua marca no Everton FC: 349 gols em 399 jogos. Dean até hoje é reconhecido como o maior goleador da história do país inventor do futebol moderno e foi prejudicado por questões políticas. Em atividade a tempo de disputar as Copas de 1930, 1934 e 1938, o atacante não as jogou por um simples motivo: a Inglaterra boicotava a Copa do Mundo por se achar superior aos demais países. Julgava que era a única praticante de futebol de verdade e que o único torneio internacional que tinha relevância era o Campeonato Britânico, disputado entre eles, o País de Gales, a Escócia e a Irlanda do Norte. Uma pena. Certamente, o mundo inteiro teria se encantando com um goleador que, seguramente, teria feito alguma diferença nas primeiras Copas do Mundo.

8 - Ian Rush - Atacante - País de Gales
Sofrendo do mesmo problema que um compatriota seu que aparecerá mais à frente, Rush foi o grande nome do Liverpool dos anos 80 e 90. Para ter idéia de sua importância no clube vermelho, Rush precedeu John Barnes na capitania da equipe e foi seu líder na conquista de cinco Campeonatos Ingleses, três FA Cups e duas Copa dos Campeões da UEFA, estando presente também na fatídica Tragédia de Heysel. Formou uma dupla explosiva com o escocês Kenny Dalglish, que não aparece nesta lista por ter a sorte de ter vivido numa época em que seu país se destacou e conseguiu jogar três Copas do Mundo consecutivas. No caminho oposto de Dalglish, Rush bem que tentou. Por 16 anos, defendeu 78 vezes a Seleção do País de Gales. Mas o segundo maior goleador da história da FA Cup - e maior goleador da mesma no Século XX - não foi capaz de pegar uma Seleção patética e transformá-la, no mínimo, em algo semelhante à Escócia de Dalglish. Fato que nunca manchou seu nome com a gloriosa camisa vermelha do Liverpool.

7 - Bernd Schuster - Meio-campo - Alemanha
Pode chegar para qualquer torcedor do Barcelona que tiver vivido e assistido o clube nos anos 80 e perguntar quem foi o grande nome de sua história. "Bernd Schuster!", seguramente será a resposta. Esse meio-campo que era a cara do futebol alemão, eficiente e forte, chegou a defender a Seleção Alemã entre 1980 e 1984, depois de ter passado pelas equipes Sub18 e Sub21. Disputou, e venceu, o Euro 80 com a poderosa Alemanha. Mas acabou ficando de fora da Copa do Mundo de 1982 e deixou o time aos 24 anos de idade. Por quê? Ora... gênio forte. Schuster vivia em desentendimentos com a Associação Alemã de Futebol, com o treinador Jupp Derwall e com a estrela Paul Breitner. O que é uma pena. Fosse uma pessoa mais equilibrada, sem dúvida Schuster não só disputaria três finais de Copa do Mundo como venceria uma delas - 1990 - junto com outros nomes fundamentais ao futebol alemão - ou, quem sabe, teria feito a diferença em 1982 (em 86 seria impossível, pois havia Maradona). Muito se chegou a cogitar Schuster na Copa de 1994, até mesmo com apelo da mídia, pelo belo papel que vinha desempenhando no Bayer Leverkusen. Acabou não acontecendo e um dos melhores jogadores alemães nunca disputou o torneio que seu país sempre jogou tão bem.

6 - Alberto Spencer - Atacante - Equador
Se desconsiderarmos Brasil, Argentina e Uruguai, que são países top na história do futebol mundial com centenas de jogadores de nível europeu, temos em Alberto Spencer, seguramente, o melhor jogador da história do futebol sul-americano. Ou talvez Spencer merecesse ser desqualificados desse quesito e colocado no panteão superior dos brasileiros, argentinos e uruguaios... afinal de contas, esse equatoriano era tão bom de bola, tão bom de bola que, depois de defender por tantas vezes em vão seu país de origem, jogou pela Seleção Uruguaia. O motivo dessa honra é que, depois de ser revelado e despontar pelo Everest Guayaquil, Spencer juntou-se ao Peñarol. Em 510 partidas, marcou 326 gols, venceu três Copas Libertadores e tornou-se o maior goleador da história do torneio, num recorde de 54 gols que perdura até os dias atuais. Se nunca jogou Copa do Mundo pela Seleção Equatoriana, Spencer chegou bem perto de disputar o Mundial de 66 pelo Uruguai. Acabou não jogando a Copa e essa injustiça, por aqui, ficou sem solução.

5 - Gunnar Nordahl - Atacante - Suécia
Sabe o cara que nasce no lugar errado e na época mais errada ainda? Bom, esse é o caso de Gunnar Nordahl, um dos maiores jogadores suecos de todos os tempos, ao lado de Nils Liedholm e Gunnar Gren. E o mais curioso é que esses dois, companheiros de Nordhal no sensacional time do Milan dos anos 40 e 50, jogaram a Copa do Mundo de 1958 pela Suécia. Nordahl não. O motivo? Dez anos antes, com apenas 27 anos de idade, Nordahl se retirou da Seleção Sueca após o título olímpico. Seus números pela seleção das Três Coroas assusta: 43 gols em 33 jogos. Assusta, mas não deveria. Nordahl era assim mesmo, atacante perfeito, capaz de tirar gols de onde menos se imagina. Em seus 257 jogos pelo Milan, de 1949 a 1956, marcou 210 gols; nada que impressione mais que seus 93 gols em 95 jogos pelo Norrköping da Suécia, ou seus 68 gols em 41 jogos pelo Hörnefors, também de seu país de origem. Mas Nordahl escolheu a época errada para defender a Seleção Sueca. O fez diante de uma era sem Copas do Mundo, em uma década vazia para o futebol. Quem sabe tivesse esperado mais dez anos, a situação de seu país em 1958, que teve apenas duas das Três Coroas suecas que encantaram no Milan, tivesse sido diferente. Mas ao menos ele deixou sua nação com aquela medalha de ouro com todo o charme do amadorismo. Em 1970, Thomas Nordahl, seu filho, disputou a Copa do Mundo, colocando o merecido sobrenome na história dos Mundiais.

4 - Eric Cantoná - Atacante - França
Uma coisa é você ter o azar de conviver com uma Seleção incapaz de qualificar-se a uma Copa do Mundo, mesmo sendo um craque de nível mundial. Outra é você jogar num país com uma grande Seleção, tradicional, cheia de jogadores acimas da média... e mesmo assim falhar em disputar a Copa do Mundo. Certamente, isso é frustrante. E essa foi uma frustração que Eric Cantoná viveu durante os 14 anos de sua carreira. Revalado pelo Auxerre, Cantoná certamente teria feito muito mais pelo Olympique Marseille caso fosse um jogador equilibrado. Seu descontrole emocional contrastava de forma absurda com sua habilidade implacável, e Cantoná acabava pulando de clube em clube, talvez numa tentativa de colocar a cabeça no lugar. Mesmo louco, estabeleceu-se muito bem no Manchester United - afinal, sanidade nunca foi um dos princípios básicos em Old Trafford. No United, Cantoná foi um sucesso completo: 144 jogos e 64 gols. E na Seleção Francesa jogava ao lado de... (respira fundo...) ... Didier Deschamps, Emmanuel Petit, Laurent Blanc, Jean-Pierre Papin... timaço. Timaço que não fez absolutamente nada no Euro 1992, não disputou o Euro 1996 por uma punição após agredir com um chute um torcedor na Inglaterra, mas, o pior de tudo... falhou em classificar-se às Copas de 1990 e 1994. Na última, então, perdeu a vaga para a Suíça, após, nas eliminatórias, precisando de um empate em dois jogos, perder de virada para a própria e para Israel (!). Aposentou-se antes da Copa de 1998 - onde, sem dúvida, corrigiria esta sua falha em não disputar Mundiais.

3 - George Weah - Atacante - Libéria
De craque internacional a candidado à presidência federal, George Weah pode assumir e orgulhar-se de sua posição como maior jogador africano de todos os tempos. Para quem olha hoje em dia e vê Samuel Eto'o ou Didier Drogba, considerando-os fenômenos, não imagina quem foi Weah, capaz de cruzar um campo inteiro com bola dominada até chegar ao gol. Suas honras vão de três vezes Jogador Africano do Ano a Melhor do Mundo pela FIFA e da Europa pela France Football, passando por Melhor Jogador Africano do Século XX. Pena que o atacante não teve a mesma sorte de Roger Milla ou Nwankwo Kanu, que jogaram por Seleções com elencos mais completos como Camarões e Nigéria. Enquanto brilhava com a camisa do Paris Saint-Germain e do AC Milan, Weah teve que dividir essas atenções com a fraquíssima Seleção da Libéria, um dos países africanos que vivia situação mais complicada dentro do continente e sem suas relações internacionais. O atacante jogou por seu país por 14 anos, e ao longo do período não viu sombra de Copa do Mundo e teve a oportunidade de disputar apenas duas Copas Africanas de Nações, com resultado pouquíssimo satisfatório. É o típico caso de jogador tão bom que a Seleção torna-se apenas um detalhe e, quando falamos em Weah, quase nunca lembramos que ele não teve a oportunidade de jogar um Mundial. Certamente, a grandeza de seu nome torna-se maior que a Copa do Mundo por si só.

2 - Ryan Giggs - Meio-campo/Ponta-esquerda/Atacante - País de Gales
Típico jogador que ganhou tudo em termos de clube. Campeonato Nacional, Copa, Copa de Liga, Supercopa (no caso, Escudo Comunitário), Liga dos Campeões, Mundial de Clubes... ao longo desses anos e de suas conquistas, Ryan Giggs foi assumindo a cara do Manchester United. O garoto nasceu em 29 de novembro de 1973. No mesmo dia, no ano de 1987, quando completava 14 anos, Giggs recebeu uma ilustre visita em sua casa: Sir Alex Ferguson. Ele tinha interesse no jovem alto e magro que o Manchester City havia dispensado. Começava a história de Giggs e dos Red Devils, que já dura 21 anos, sendo 18 como profissional. No total, Giggs tem mais de 750 jogos com a camisa vermelha, assinalando 100 gols para o time. Seu estilo de jogo lembra craques como Falcão ou Platini, de corpo esguio e cabeça levantada. Realiza passes perfeitos, tem uma grande habilidade em cabecear, cruzar e bater faltas e, apesar de sempre preferir fazer o mais simples (craques não devem ser chegados em firulas), sabe usar o drible com perfeição quando necessário. Resumindo, Giggs é um jogador quase completo. "Quase", por um único detalhe: nasceu num país remoto chamado Gales, cuja última vez presente em Copas do Mundo fora em 1958. Giggs defendeu a Seleção de Gales de 1991 a 2007, 16 anos de dedicação que foram incapazes de levar seu pequeno país a um Mundial ou Campeonato Europeu. Ah, tivesse nascido inglês...

1 - George Best - Ponta - Irlanda do Norte
Seguramente, um dos cinco maiores jogadores de todo tempo, ao lado de Pelé, Diego Maradona, Johann Cruyff e Ferenc Puskas. O jovem de cabelos compridos e barba que era conhecido por "Quinto Beatle" inovou o futebol dentro de campo e fora dele, carimbando a figura do jogador transgressor, chegado em álcool, mulheres e jogatina. Enquanto fazia a alegria dos tablóides fora de campo, Best respondia dentro dele. Best foi descoberto ao estilo Manchester United: jovem, impressionava por sua habilidade e, através de um olheiro, o treinador, à época o lendário Matt Busby, autorizou a contratação - como manda o figurino de um clube participativo como o Manchester United. Subiu ao profissional com 17 anos de idade. Aos 20 experimentou o auge de sua carreira, o furor da imprensa e a exposição de sua vida pública. Entrou na dança e passou a fazer parte da vida de jogador de futebol e estrela da cultura pop. Seu estilo de jogo era muito rápido e agressivo, além de um tanto quanto impulsivo. Best se notabilizou por suas arrancadas e isso ajudou o Manchester United a conquistar Campeonatos Nacionais, Copa dos Campeões e Mundial Interclubes. Essas características ajudavam a Irlanda do Norte também. Mas num elenco limitadíssimo, não havia o que Best pudesse fazer para levar a Irlanda do Norte a uma Copa do Mundo, ainda mais com um torneio limitado a 16 Seleções. E olha que Best se esforçava MUITO. A cena de Best marcando a saída de bola de Gordon Banks em jogo contra a Inglaterra tornou-se antologica e chega a assumir o posto de maior feito da Seleção Norte-Irlandesa (?). É um desperdício um sujeito desses numa Seleção desse nível.