TOPETUDO DE BOLA - POR THIAGO LEAL

Em 1998 a MasterCard e a FIFA convocaram 250 jornalistas de todo o mundo para elaborar a Seleção do Século XX. O time escolhido foi composto por Lev Yashin no gol, Carlos Alberto Torres na lateral direita, Franz Beckenbauer e Bobby Moore na zaga e Nílton Santos na lateral esquerda. No meio campo Johan Cruyff, Diego Maradona e Michel Platini tinham o dever de levar a bola aos atacantes Garrincha, Alfredo Di Stéfano e Pelé.

Mas se esse time fosse desafiado, quem seriam os adversários? O Fanático Esporte Clube, mais rico que a MasterCard e mais importante que a FIFA, apresenta agora a seleção número 2 do Século XX. Os jogadores que mais se destacaram no período - depois da Seleção número 1, é claro.

 
  TOP 11 - SOU (QUASE) O MELHOR DO MUNDO (01/07/08)

11 - Andreas Brehme - Lateral-esquerdo - Alemanha
Brehme cobrou o polêmico pênalti marcado a favor da Alemanha nos minutos finais da decisão da Copa de 1990, contra a Argentina. Na verdade o lateral esteve em campo quatro anos antes, contra a mesma Argentina, na final da Copa de 1986. Naquela ocasião, Brehme e a Alemanha foram derrotados por 3x2. Cobrando o pênalti e marcando para a Alemanha na controversa final de 90, Brehme deu o título ao seu país. Um lateral pouco comentado que resume com precisão o estilo de jogo alemão, especialmente para o Século XX. Foi importante também na Copa de 1994, quando a Alemanha fez uma campanha apenas regular, eliminada nas quartas-de-final pela surpreendente Bulgária. Talvez seja o nome mais "fraco" deste time, mas tem vaga aqui por ter sido o de maior destaque no período.

10 - Rudolf Krol - Zagueiro - Holanda
Injustamente, Rudi Krol certamente é o nome mais desconhecido da lista. Este belo zagueiro levou a Holanda duas vezes à decisão de uma Copa do Mundo. Em 1974, no ano do "Carrossel Holandês", Krol chegou a marcar um golaço de fora da área, contra a Argentina. Foi um ótimo marcador e ajudou a Laranja Mecânica a eliminar o Brasil, um dos favoritos ao título, onde deu assistência que resultou em gol de gol de Cruyff - ironicamente, o zagueiro viria a marcar também um gol contra naquele mundial, na vitória por 4x1 sobre Bulgária. Em 1978, na ausência de Cruyff, Krol assumiu a função de capitão da equipe. No total, Krol defendeu a Holanda em 83 jogos, de 1969 a 1983. O futebol holandês nunca foi uma grande unanimidade em seus zagueiros, sempre sendo mais potente no ataque e meio-campo. Krol serve de exemplo para um país que precisa de zagueiros para voltar a praticar o futebol perfeito de 1974.

9 - Gerd Müller - Centroavante - Alemanha
Pode comparar: Jürgen Klinsmann, Oliver Bierhoff ou Kevin Kuranyi. Atacantes alemães não costumam ser muito habilidosos - com exceção, claro, de Rumenigge. Mas Müller compensava a falta de habilidade com sua capacidade de marcar gols. Em 1970, foram dez. Em 1974, quatro. Seus 14 gols o fizeram recordista na história das Copas do Mundo até que Ronaldo batesse a marca em 2006. Entra no time porque, no futebol mundial, ninguém foi mais matador no Século XX. Foram os gols de Müller que contribuíram para as excelentes campanhas alemãs em 1970 e 1974 - onde marcou o gol do título. Finalizou sua história em Copas do Mundo com 14 gols em 13 jogos. Diferente dos nomes citados, Müller era baixinho... e mesmo com essa desvantagem, foi muito mais atacante que todos.

8 - Paul Breitner - Lateral-direito - Alemanha
Outro alemão! OK, se os alemães ganharam três títulos surpreendentes no século... Breitner foi uma espécie de inspiração ao estilo de Brehme, que abre esse topetudo. Era um lateral ofensivo, que constantemente subia ao ataque e possuía um chute potentíssimo. Assim como Brehme, cobrou um pênalti em final de Copa do Mundo - este em 1974, contra os Holandeses, onde a Alemanha também foi campeã. E assim como Brehme, Breitner levou seu país a duas finais de Mundial: o outro foi em 1982, quando perdeu para a Itália, mas também deixou sua marca. Mas antes disso tudo, em 1972, esteve em campo com a seleção que venceu o Euro 72. Dos nomes citados até aqui, é sem dúvida o mais talentoso. Poderia ter tido mais sucesso internacional, não fosse um "craque-problema", o que muitas vezes o deixou de fora da seleção - como no Euro 80, por exemplo...

7 - Gordon Banks - Goleiro - Inglaterra
Fiquei em dúvida entre ele e Dino Zoff, ambos campeões mundiais. O feito de Zoff, de ser capitão e campeão aos 40 anos de idade, foi mais notável. Mas debaixo dos paus, Banks, que fez a chamada "maior defesa de todos os tempos", numa cabeçada de Pelé na Copa de 70, foi mais goleiro. Então, merecidamente, fica com a vaga na posição da Segunda Seleção do Século. Como todo bom goleiro, Banks inspirava segurança aos seus zagueiros e cometia poucas falhas - qualidade que Oliver Kahn, Gianluigi Buffon ou Dida, grandes goleiros do Século XXI, nunca tiveram. Para muitos, a eliminação inglesa na Copa de 1970 só aconteceu por Banks estar de fora nas quartas-de-final. De qualquer forma, eis um goleiro que foi simplesmente fora de série, coisa que é muito rara em termos de Inglaterra - Peter Shilton que o diga. Jogou menos Copas do Mundo que Yashin, portanto acabou destacando-se menos. Mas não foi, de forma alguma, inferior.

6 - Rivelino - Meio-campo - Brasil
Um protótipo de jogador completo, Roberto Rivellino, grafado pela imprensa brasileira apenas como Rivelido, com um L, fez a diferença na Copa de 1970, onde o maior destaque acabou indo para Pelé. Mas em 1974 e em 1978, nas Copas seguintes, Rivelino estava lá, com a camisa 10 que lhe cabia. Era veloz, habilidoso na hora de driblar, tinha um chute forte, mas sabia colocar bem a bola na hora de cobrar uma falta... e também cabeceava. Estava tudo lá, do jeito que um grande atacante tem que ser. Tanto que serviu de inspiração sabe pra quem? Diego Maradona, segundo palavras do próprio. Como é de praxe para todo craque, a perna esquerda de Rivelino era simplesmente mortal. Para enfrentar um time cheio de canhotos bons, que é a Seleção do Século XX, nada melhor que um homem com as mesmas características no time de cá.

5 - Franco Baresi - Zagueiro - Itália
Um dos melhores zagueiros de seu tempo e de todos os tempos, com a versatilidade de atuar também como lateral, como todo grande defensor italiano tem que ser. Baresi esteve no elenco campeão de 1982, mas não chegou a entrar em campo. Ficou de fora da Copa de 1986, mas em 1990 estava de volta à seleção, jogando a Copa do Mundo em casa e atuando muito bem numa campanha de destaque dos italianos. O mais impressionante acabou sendo a Copa de 1994, quando machucou-se na segunda partida da equipe, contra a Noruega, mas operou o menisco e retornou a tempo de jogar a decisão contra o Brasil. Em campo, anulou completamente Romário, a estrela daquele Mundial. Vencido pelas cãimbras, perdeu o primeiro pênalti da Itália nas cobranças, o que acabaria sendo fatal para seu país, somado aos erros de Daniele Massaro e de Roberto Baggio. Mas de forma alguma esse erro mancha seu currículo, ou seu posto de melhor zagueiro de seu tempo, e inspiração óbvia para Paolo Maldini e Fabio Cannavarro.

4 - Ferenc Puskás - Atacante - Hungria
Já ganhou espaço num dos nossos tops, "Maiores que a Copa", onde foi vice-campeão. Astro de uma geração húngara que ficou com o vice-campeonato em 1954, Puskás marcou 589 gols em 529 jogos, sendo 83 tentos em 84 partidas pela seleção. Acabou sendo o ídolo maior daquele time que ganhou o apelido de Time de Ouro e de Mágicos Magiares, de feitos já ditos aqui como impor a primeira derrota da Inglaterra em Wembley e levar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1952. Craque também no Real Madrid, Puskás era rápido e mortal, mesmo sendo um jogador baixinho e sempre acima do peso. Sem dúvida, sua história teria sido mais marcante caso os húngaros tivessem vencido a Copa de 1954 - o que daria origem ao futebol moderno, que acabou sendo criado apenas em 1958 com a seleção brasileira e seria reinventado em 1970 com mais uma seleção brasileira. Mas seu talento em campo foi inegável, e seu reconhecimento e fama fora dele fizeram de Puskas o primeiro grande craque da história do futebol moderno. Ainda assim, nem era o melhor da Seleção Húngara...

3 - Sandor Kocsis - Meio-campo - Hungria
O jogador croata mais famoso e que teve mais reconhecimento foi Davor Suker. Mas o melhor, inegavelmente, era Zvonimir Boban. O mesmo fenômeno se repetiu com a Hungria: o craque que ganhou toda fama foi Puskas. Mas o melhor, o mais cerebral, sem dúvida foi Sandor Kocsis. Independentemente de sua posição, Kocsis era um exímio goleador: na Copa de 1954 foram 11 gols em cinco jogos - média de 2,2 gol por partida, que o coloca à frente de Just Fontaine, que em 1958 marcou 13 vezes em seis jogos e obteve média de 2,16. Deixou a Seleção Húngara em 1956, assim como Puskas. Seu número de gols no entanto foi mais surpreendente que o do colega mais famosos: em 68 compromissos com a seleção, Kocsis marcou 75 vezes. Em 1952 e 1954, anos em que foi artilheiro da Liga Húngara, o meia também foi o maior artilheiro europeu na temporada. Para dar mais características de um grande craque, Kocsis era o típico meia que jogava de "cabeça em pé", dava dribles mortais, tinha um chute certeiro e também era grande cabeceador. A linhagem de artilheiros como Kocsis passou por Just Fontaine, Pelé e Müller. Hoje em dia, quando um goleador faz tanta falta, não se tem mais jogador com tamanha precisão.

2 - Marco van Basten - Atacante - Holanda
Conquistou para seu país algo que nem Cruyff conseguiu: um título de expressão, o Euro de 1988, onde marcou um antológico gol de voleio. Mas ao contrário daquele que é o único jogador holandês a superá-lo, van Basten não conseguiu brilhar numa Copa do Mundo. Nem faz tanta diferença assim, no final das contas. Foi líder de uma geração que tinha Ruud Gullit, Ronald Koeman e Frank Rijkaard e ídolo máximo no Ajax Amsterdã e no Milan. Também era um grande goleador - pelo Milan foram 90 gols em 147 jogos, pelo Ajax 128 gols em 133 jogos, isso numa época onde joga-se um futebol moderno e é simplesmente impensável chegar-se próximo a média de um gol por partida, coisa que van Basten fez dos 18 aos 23 anos, mostrando que aquele menino seria, sem dúvida, um fenômeno do futebol. Encerrou a carreira cedo, com apenas 29 anos - idade em que muitos jogadores chegam ao seu auge. Sua aposentadoria foi motivada por contusões que não o deixavam continuar em campo. Ciente de suas limitações físicas, van Basten preferiu encerrar uma carreira vitoriosa sem manchá-la a seguir se arrastando nos gramados, coisa que deveria servir de exemplo a Ronaldo. Van Basten, que ao lado de Platini e Cruyff é o único a ganhar três vezes o prêmio de Jogador Europeu do Ano, preferiu ser lembrado apenas como um craque com uma visão de jogo excelente, que se posicionava muito bem e marcava gols como poucos. Sem dúvida, um gênio.

1 - George Best - Meio-campo - Irlanda do Norte
Se o segundo colocado da lista nunca brilhou numa Copa do Mundo, o primeiro sequer chegou a jogar uma. George Best jogador versátil que jogava tanto como atacante (ponta) como meio-campo, forma como foi escalado neste Segundo Time do Século XX. E é o outro jogador desta lista a já ter aparecido num Top 11 antes, sendo o campeão do "Maiores que o Mundo". Repetirei, portanto, algo que não canso de escrever e que o farei sempre que necessário: listar as qualidades de Best. Este singular jogador britânico, o maior de todos os tempos na Ilha, pode se qualificar entre os cinco maiores jogadores de todos os tempos, numa lista que inclui Pelé, Maradona, Cruyff e Puskas. Em algumas características, Best poderia superar mesmo estes quatro. Na velocidade, por exemplo. No posicionamento, no desarme de jogadas, no controle e manutenção de posse de bola... Best era um jogador que se mantinha sempre em projeção ao gol. Avançar à meta com velocidade era prioridade de um jogador que seria muito mais reconhecido caso não jogasse por uma seleção ingrata como a norte-irlandesa - uma vez que, nos anos 60 e 70, era mais importante brilhar por uma seleção que por clube. Mas seu estilo inconfundível dentro de campo, com tronco levemente arqueado e sempre protegendo bem a bola, de modo que desarmá-lo era quase impossível, o colocou num patamar maior que qualquer seleção mundial. Some isso ao seu gosto pela vida boêmia de mulheres, álcool, carros... e pronto: temos em Best o primeiro craque do futebol moderno, numa linhagem que influenciaria muita gente... este é o craque desta seleção.